Formação universitária é nova meta do movimento indígena brasileiro

Terra – 07/08/14

A primeira geração de índios universitários brasileiros, reunida nesta semana na cidade de Campo Grande no II Encontro Nacional de Estudantes Indígenas (ENEI), colocou nesta quinta-feira seu conhecimento acadêmico à disposição da luta pelos direitos de seus povos no Brasil.

Os quase 700 índios universitários de diferentes etnias que participaram do evento, o maior deste tipo realizado até o momento e que terminou hoje, criaram novos mecanismos e grupos de trabalho para defender seus direitos e coordenar ações em nível nacional.

“Estamos plantando uma semente. Minhas dificuldades e a do resto são as mesmas”, afirmou à Agência Efe Iara, uma estudante de engenharia florestal da etnia Terena, em relação aos jovens das 305 etnias reconhecidas pelo governo brasileiro.

Nos quatro dias do encontro, os principais caciques e líderes de conselhos indígenas regionais brasileiros, assim como vários reitores, apoiaram o trabalho dos estudantes indígenas.

“Vocês são nossa esperança, a garantia futura dos direitos dos indígenas do Brasil”, disse o cacique Lindomar Terena, cujo nome consta na lista de líderes ameaçados por latifundiários e que estão sob proteção do governo, para os jovens reunidos na capital do Mato Grosso do Sul, o estado que mais violência étnica registrou em 2013.

“O grande desafio é viver como somos. Nesta luta, caciques, pajés e doutores somos iguais. Nós, que fomos objeto de pesquisa durante muito tempo, agora somos os pesquisadores”, acrescentou.

As principais reivindicações dos estudantes indígenas foram o direito à recuperação e a demarcação das terras tradicionais reconhecidas na Constituição de 1988, assim como a inclusão de conhecimentos tradicionais na universidade.

Eles também exigiram a melhora do acesso à saúde e à educação em suas comunidades e a realização de campanhas de comunicação que tragam uma visão alternativa sobre a discriminação e a violação de direitos sofridos pelos índios.

Representantes do Ministério da Educação, da Funai e do governo do Mato Grosso do Sul ouviram e debateram alguns dos pedidos dos estudantes dentro e fora do âmbito acadêmico.

Segundo os índios, as principais dificuldades que enfrentam ao entrar na universidade são a discriminação e a falta de recursos econômicos, assim como de assessoria.

“É difícil se adaptar, chegamos da aldeia com uma base educacional mais fraca e enfrentamos o preconceito de que o indígena é incapaz”, explicou Carolina Vicente Terena, estudante de direito.

“O acesso dos índios à educação superior significa o empoderamento destes povos para negociar com o Estado e deixar de estarem subordinados às decisões dos não-índios sobre as lutas e reivindicações indígenas”, disse Rita Gomes, da tribo Potiguara, e representante do Ministério da Educação.

Uma das propostas centrais da reunião foi a integração de conhecimentos indígenas nas universidades para realizar a “descolonização do conhecimento”, segundo Eliel Benites, professor da Universidade Federal da Grande Dourados e líder do Movimento de Professores Guarani Kaiowá.

Esta proposta contou com o apoio de vários representantes indígenas de Colômbia, Equador e Peru, que compartilharam a experiência de seus países na educação superior indígena.

“É necessário um ambiente político, metodológico e pedagógico na universidade que garanta nossos direitos e que ao mesmo tempo respeite nossa identidade”, defendeu Benites, para quem o enfoque individual da metodologia universitária se choca com a cultura comunitária dos povos indígenas.

Outra reivindicação dos jovens foi a renovação e melhoria das políticas públicas destinadas a estudantes indígenas, além da implementação de novas estratégias, como uma prova de acesso diferenciada e mais apoio para a permanência dos índios nas instituições de ensinosuperior.

Os quase um milhão de índios que vivem no Brasil, segundo o censo de 2010, foram beneficiados pelo sistema de cotas estabelecido em 2004 no governo Lula, que estabelece uma quota mínima de vagas para indígenas nas universidades públicas, e a criação de uma bolsa de estudos para os índios.

Atualmente, 15 mil índios frequentam a universidade no Brasil, informou Julio César Godoy, representante do Ministério da Educação.

 

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