Relato do período histórico envolve disputa explosiva

 

RICARDO BONALUME NETO – DE SÃO PAULO – Folha de São Paulo“Assim, não apenas as Forças Armadas estão perdendo a batalha pelo presente, mas estão em perigo de serem roubadas do seu passado -esse passado quase mitológico que é essencial ao moral de qualquer Exército, novo ou velho”.

Essa frase é perfeita para definir o atual embate ideológico envolvendo a história recente das Forças Armadas brasileiras e o seu papel no regime de 1964 -e vale igualmente para o passado mais distante.

Mas, curiosamente, ela foi escrita pelo historiador israelense Martin van Creveld sobre as Forças de Defesa de Israel.

Que algo assim seja dito sobre alguns dos militares mais competentes do planeta -e fundamentais para um país cercado de inimigos reais- mostra o grau de ressentimento que a sociedade civil está desenvolvendo em relação aos militares em boa parte do mundo.

No caso israelense, foram as desastradas intervenções no Líbano e o constante embate com os palestinos dos territórios ocupados que criaram uma atmosfera de desencantamento com as Forças Armadas, que anos antes eram vistas como o grande “escudo” de um país supostamente pacifista, mas rodeado por vizinhos hostis.

Historiadores israelenses revisionistas estão atacando essa visão “quase mitológica” do passado.

No Brasil, as esquerdas e seus historiadores também revisionistas começaram durante o regime militar atacando o passado mais distante -procurando minimizar os feitos das Forças Armadas durante a Guerra do Paraguai (1865-1870) e a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial (de 1942 a 1945).

Não era então possível atacar diretamente os militares no poder.

EMBATE IDEOLÓGICO

Com a volta da democracia, em 1985, o embate ideológico voltou com força. Os militares insistem na sua versão do passado recente, de que impediram o país de virar uma ditadura comunista e salvaram a democracia.

Já a esquerda, tanto a armada com fuzis ou a com laptops, insiste que lutava também pela democracia, apesar de seus patronos serem notórias ditaduras totalitárias -União Soviética, China, Cuba.

O Exército já reconheceu erros no passado, como a campanha de Canudos, no final do século 19. Mas patronos como o Duque de Caxias são inatacáveis. Um antigo diretor da Biblioteca do Exército censurou certa vez um livro de um acadêmico por que continham críticas ao patrono da força -só que as críticas vinham de outro militar, Benjamin Constant…

Caxias morreu faz tempo e não tem como reclamar. Já a atual disputa pela memória, pelo conteúdo de livros didáticos e livros de história, é mais explosiva porque muitos dos protagonistas da “luta armada” e da sua repressão estão vivos. E atuantes.

RICARDO BONALUME NETO é autor de “A Nossa Segunda Guerra – Os Brasileiros em Combate, 1942-1945” (Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, 1995).

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