Professores revolucionam com ensino socioemocional no Brasil

Terra Educação – 15/04/15

Na Escola Chico Anysio, no Rio de Janeiro, currículo inclui pensar projeto de vida

A sala de aula, as classes, o quadro negro, o professor em pé dizendo verdades absolutas e os alunos sentados em seus lugares, escutando em silêncio: esse cenário está cada vez mais distante das escolas, e já não dá conta das necessidades dos estudantes do século 21. No Canadá, já em 2009, o Ministério da Educação de Ontário alterou as diretrizes curriculares para que elas incluíssem o desenvolvimento de habilidades socioemocionais. No Brasil, esse movimento também está começando.

Em 2012, a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro queria mudar o conceito de educação no ensino médio. Foi então que, em parceria com o Instituto Ayrton Senna, se desenvolveu a Solução Educacional para o Ensino Médio. A escola estadual Chico Anysio foi escolhida para pôr em prática um currículo escolar que combinasse o desenvolvimento cognitivo com as habilidades socioemocionais. Em 2013, a escola abriu as portas para as três turmas de primeiro ano do ensino médio, com 30 alunos cada. Localizada no bairro Andaraí, a instituição foi inaugurada especialmente para receber esse projeto e funciona em tempo integral. Este ano, essa turma se forma.

“O Brasil está fazendo um esforço em oferecer acesso à educação, e os números do analfabetismo diminuíram. Mas isso não é tudo. Hoje, o desafio maior é oferecer educação de qualidade, que trabalhe também posturas e conhecimentos da vida que precisam ser adquiridos durante a vida escolar”, afirma a coordenadora de Educação do Instituto Ayrton Senna, Simone André. Para atender a essa demanda, a escola Chico Anysio trabalha no currículo quatro grandes áreas de conhecimento: Linguagens, que engloba as disciplinas de Língua Portuguesa, Arte, Educação Física e Língua Estrangeira; Ciências da Natureza, com Biologia, Física e Química; Ciências Humanas, com História, Geografia, Sociologia e Filosofia; além da área da Matemática.

Em paralelo, existe o “núcleo articulador”, que possui três tipos de projeto: de intervenção, em que os alunos trabalham em times para ações que envolvam a escola e a comunidade; de pesquisa, os estudantes também se dividem em equipes para pesquisas relacionadas às áreas de conhecimento; e os projetos de vida, em que grupos de alunos se reúnem para refletir sobre suas trajetórias escolares e vivenciar situações que lhes permitam construir suas identidades e seus projetos de vida. Simone explica que esse é um modelo de educação integral e que, a partir dessa proposta pedagógica, é possível preparar os alunos para ter maior permanência no trabalho, estabelecer relacionamentos estáveis, ter maior cuidado com a saúde, além de aprender a trabalhar em equipe e melhorar sua capacidade de se comunicar.

Escola modelo
Júlia de Araújo Matos está entre os alunos da primeira turma de ensino médio da escola. A adolescente de 17 anos tinha uma bolsa de estudos e realizou todo o ensino fundamental em uma instituição privada. Ao completar a oitava série, sabia que teria que ir para o ensino público. Ao pesquisar, se deparou com a proposta pedagógica da Chico Anysio e se apaixonou. “Eu adoro estudar aqui. Me sinto importante porque estou fazendo parte de algo que vai revolucionar a educação”, afirma a estudante do terceiro ano.

A prova de que a motivação é grande está no tempo que a garota leva para chegar até a instituição. São duas horas para ir e, dependendo trânsito, três para voltar para casa no fim do dia. Entre os projetos de que Júlia participou, o preferido é o Varanda Literária. A turma observou entre os alunos uma falta de interesse em ler. Depois de pesquisar a preferência de leituras dos estudantes, o grupo arrecadou livros que passaram a ser disponibilizados em uma estante no pátio da escola. Orgulhosa, ela lembra que foi um sucesso desde a inauguração e que a Varanda já recebeu melhorias propostas por projetos de outras turmas.

Além do envolvimento com os projetos, outro diferencial para os alunos é a relação com o professor. “A aula é leve. Quando eu era mais nova tinha medo de professor, de falar na aula, pensava que ele ia me julgar. Aqui não tem essa relação de poder, ele me orienta”, conta Júlia, se dizendo menos tímida por se sentir a vontade na sala de aula. Carina Madruga, aluna do segundo ano, também é tímida e nota a melhora desde que começou a estudar na Chico Anysio. “Aqui a gente sente mais próximo do professor. Eles participam da nossa vida”, conta.

Para o diretor da Chico Anysio, Willmann Costa, essa relação sadia e de cumplicidade entre professor e aluno também melhora a autoestima do professor. “É muito motivador a procura do aluno. Costumo dizer que o bom professor não é aquele que ensina o que sabe e sim aquele que se arrisca a descobrir com aluno”, diz. Há dois anos na direção da escola, ele explica que para executar um projeto assim é preciso “sair do quadrado e da zona de conforto”. O professor precisa ser um provocador, que instigue os estudantes. Coordenadora de educação do Instituto Ayrton Senna, Simone André concorda. “Ser educador para oferecer uma educação pobre acaba empobrecendo o educador”, defende.

De forma mais simplificada, este modelo de educação está implementado atualmente em 51 escolas estaduais do Rio, parceiras do Programa Ensino Médio Inovador (ProEMI). Nessas instituições, a proposta pedagógica incorpora apenas uma parte da Solução Educacional para o Ensino Médio. No currículo dessas escolas foram incluídos componentes que fortalecem a dimensão socioemocional na aprendizagem da matemática, línguas e ciências, assim como um espaço para o desenvolvimento de projetos de vida. Simone conta que, mesmo de forma parcial, essas experiências têm sido um sucesso e já existe um plano para começar a desenvolver uma proposta voltada para o ensino fundamental.

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