Falar antes de escrever

Revista Escola – 23 de julho de 2014
 
Um dos grandes desafios da EJA, especialmente com os alunos que se alfabetizam já adultos, é melhorar a expressão escrita.Escrever é bastante diferente de falar. Aprendemos a falar, na imensa maioria dos casos, quando ainda somos muito crianças, quase “sem querer”. É claro que se trata de um processo complexo, cheio de influências biológicas, sociais e culturais. No entanto, é tão corriqueiro observarmos uma criança crescer e aprender a falar que encaramos a aquisição da fala como algo natural.O escrever, contudo, não  se desenvolve da mesma forma. Na maior parte das vezes, a aquisição da escrita  acontece na escola e precisa da intermediação de um professor, que intencionalmente proporciona situações para que ela ocorra.

Podemos encarar o processo de aprender a escrever como uma transição da fala para a escrita; embora essa seja uma simplificação, pode ser útil em termos didáticos. Na escola, é preciso fazer essa transição juntamente com os alunos, repisando o caminho de como uma  fala pode ser escrita, explicitar que essa transição está sendo feita, para que os alunos se familiarizem e se desenvolvam no processo.

Seguindo dicas de uma colega professora de Língua Portuguesa e estudando um pouco sobre o assunto, aprendi que o desempenho dos alunos nas produções escritas melhora bastante se, antes de escrever, eles falarem sobre o que escreverão. Por exemplo: após realizar um experimento na aula de Ciências, é interessante que os alunos registrem por escrito o que vivenciaram. Geralmente, o experimento ocupa uma aula e o relatório sobre ele, mais uma.

Quando iniciei na EJA, eu propunha que os alunos, após a aula do experimento, passassem diretamente à escrita na aula seguinte. Depois dessa dica, eu mudei o encaminhamento e fazemos uma roda de conversa sobre o que aconteceu no experimento, os materiais que usamos, os resultados obtidos etc. Nessa roda, eu peço que os alunos falem em voz alta como se “estivessem escrevendo”. Um exemplo: “Pegamos um termômetro, fomos ao laboratório e ao pátio e medimos a temperatura do ambiente nesses dois lugares.”

Percebi que, depois de conversar sobre o assunto, o desempenho dos alunos na escrita é muito melhor. A conversa nesse contexto cumpre uma dupla função: rememorar o experimento  (pois muitos alunos esquecem os detalhes do que vivenciaram) e fornecer modelos para o registro escrito. Muitos alunos com dificuldades, ao ouvir as propostas dos colegas, têm ideias de como podem proceder. Na medida em que fazemos atividades semelhantes, aos poucos vão se soltando e dando suas próprias sugestões.

Obviamente, inserir a roda de conversa nessa sequência didática ocupa tempo (nosso recurso mais precioso!). Contudo, na minha avaliação, esse investimento vale a pena. Quando eu conduzia a atividade sem a conversa, acabava gastando o mesmo tempo recordando o que tinha acontecido, dando sugestões sobre como  iniciar e desenvolver o texto… Enfim, acabava fazendo a mesma coisa que agora fazemos coletivamente nas rodas de conversa.

Como você vê essa questão? Na sua experiência, o “falar antes” melhora o escrever?

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