Ensino de música como ponte para outras áreas do conhecimento

Globo.com – POR FLÁVIO ILHA / CORRESPONDENTE – 21/07/2014 
 
Evento no RS estimula regulamentação de lei sobre o tema no país
 
PORTO ALEGRE – Durante pelo menos 30 minutos, uma vez por semana, as crianças da Escola Municipal de Educação Infantil Vila Floresta, na zona norte de Porto Alegre, fazem uma rodinha em volta da professora Cristina Rolim Wolffenbüttel para cantar, tocar flauta e teclado ou simplesmente bater palmas de forma ritmada. Longe de ser apenas uma atividade lúdica, tão comum na rotina das turmas com alunos até seis anos, a atividade é curricular e desenvolvida por uma doutora em Música pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). As aulas são parte da aplicação da lei 11.769, que tornou obrigatório o ensino musical em todos os níveis da educação brasileira.Sancionada há quase seis anos, a lei enfrenta um calvário para ser aplicada porque ainda precisa de regulamentação. Sucinta, com apenas dois artigos, a determinação apenas alterou o conteúdo da Lei de Diretrizes e Bases da educação brasileira – a LDB – no que tange ao ensino das artes, tornando o conteúdo de música obrigatório mas sem especificar como e em que medida. As escolas teriam três anos para se adaptar à mudança, mas pouca coisa ocorreu desde então. Para estimular a regulamentação, o Brasil foi escolhido como sede da 31ª Conferência Mundial da International Society for Music Education (Isme). O encontro inicia nesta segunda-feira em Porto Alegre.A cidade não foi escolhida por acaso para sediar a primeira Conferência da Isme na América Latina, depois de já ter passado por 30 países. Desde 1996 que a rede municipal de ensino privilegia o ensino musical, com a realização de concursos específicos para a disciplina. No Brasil, foi pioneira nesse quesito. As aulas da professora Cristina, por exemplo, estão longe de se confundirem com aquelas sessões lúdicas em que os alunos apenas interagem com os instrumentos. Cristina canta com uma afinação impressionante, toca flauta doce, violão, estuda a adoção da disciplina musical nas escolas e coordena os Centros Musicais adotados pela Secretaria Municipal de Educação. Mas se encanta mesmo é com as aulas na Vila Floresta.- A música é capaz de mexer com a vida inteira das pessoas, sem exagero. Pode melhorar as relações interpessoais, pode influenciar a aprendizagem em outras áreas de conhecimento, ajudar nas tarefas cognitivas e também no desenvolvimento motor. É um conteúdo completo e para sempre – define a professora.

A Conferência da Isme tem como objetivo justamente valorizar esse conteúdo, garantido por lei mas longe de ser uma realidade nas escolas brasileiras. A coordenadora-geral do evento, Liane Hentschke, justifica que o encontro deveria ser uma espécie de apoteose para celebrar o ensino da música no país, mas se transformou num desafio para a internacionalização do Brasil nesse departamento. Processo que, segundo ela, será longo e difícil. Um exemplo disso é que sequer há estatísticas sobre a presença de professores de música nas salas de aula do país.

– Não tem mapeamento, não está no radar das autoridades. O descaso pode ser medido pela dificuldade de realizar a Conferência. A secretaria municipal de Educação ofereceu 20 cadeiras e três microfones. A secretaria estadual alegou que não tinha dinheiro e o banco do Estado (Banrisul) preferiu patrocinar a festa do porco numa cidade do interior. Todo mundo achou ótima (a Conferência), mas ajudar, pouca gente ajudou – reclama a professora.

Em Porto Alegre, segundo dados da Secretaria de Educação, há 50 professores de música concursados para as 97 escolas municipais, incluindo educação infantil, ensino fundamental e ensino médio. A defasagem é flagrante, embora a capital gaúcha esteja entra as cidades brasileiras com mais densidade no ensino da música. Liane lamenta que a lei de 2008, “como tantas outras”, não tenha virado realidade. Segundo a professora, o problema é que falta avaliação sobre a medida. A lei, por exemplo, não determina carga horária, conteúdo mínimo, formação dos docentes e nem eventuais punições para escolas que não adotarem a disciplina. Em países com mais tradição musical, o ensino da disciplina é apoiado por uma base curricular objetiva, material de didático bem produzido e estrutura nas escolas, que oferecem instrumentos para seus alunos durante toda a formação.

– O resultado é que muitos estudantes que concluem o ensino médio nesses países tocam melhor que nossos estudantes de graduação – lamenta Liane.

Na Escola Municipal da Vila Floresta a estrutura não é a ideal mas, mesmo assim, o ensino de música resiste. A professora Cristina foi incorporada à rede no início deste ano. As aulas de piano são ministradas em um teclado cedido pela própria professora. A “bateria” foi construída pelas crianças usando latas e embalagens plásticas recicladas. Foram elas também que ajudar a montar um cantinho para as apresentações, com microfones de brinquedo e instrumentos de plástico para exercitar o gosto pelo palco. A vice-diretora da unidade, Cláudia Parra Stein, conta que o saldo é positivo.

– É importante manter a constância da oferta de ensino musical, independentemente da estrutura. De uma forma ou de outra, aqui eles têm contato com o universo da música e podem evoluir junto com a escola. As famílias, infelizmente, ainda não têm tradição de presentear um violino ou uma harpa para seus filhos, em vez de um videogame – constata.

A Isme foi criada em 1953 pela Unesco e atualmente existe em mais de 80 países, com 300 mil sócios. A Conferência da instituição se realiza a cada dois anos. Em Porto Alegre serão cinco dias de conferências, workshops e simpósios voltados para educadores, professores e estudantes de música, além da apresentação de 36 grupos musicais de vários países.

Segundo a presidente da Isme, Margaret Barret, o evento oferecerá uma oportunidade para celebrar a diversidade da criação mundial.

– As autoridades educacionais precisam reconhecer as múltiplas formas que a música molda nossas vidas e refletir sobre as contribuições únicas que traz à vida dos indivíduos e das comunidades – diz.

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