Educação não pode cimentar privilégios

Fonte: Folha de S.Paulo (SP) – 22/06/2014

A educação é essencial para criar mobilidade social e reduzir desigualdades. Mas, se isso não ocorre, sistemas de ensino podem ser usados pelas elites para cimentar privilégios sociais.

O alerta é de Michael Roth, reitor da Universidade Wesleyan, no nordeste dos EUA. Historiador, ele acaba de lançar “Beyond the University, Why Liberal Education Matters” [além da universidade, porque uma educação liberal é importante], no qual defende o ensino multidisciplinar, preocupado com a formação integral de cidadãos, com menos ênfase no treinamento só para o emprego. Afinal, trabalhos mudam com o tempo e as pessoas precisam sempre aprender a aprender.

Nessa entrevista, Roth, 57, concorda com o economista Thomas Piketty, que aponta o poder das elites no sistema educacional norte-americano minando a meritocracia.

Para o reitor, apesar de as instituições de elite usarem critérios que tendem a favorecer os mais ricos, também mantêm programas de inclusão para os de baixa renda.

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Folha – Seu livro discute uma educação abrangente para formar cidadãos. O sr. critica o ensino focado no treinamento para o trabalho. Diz que essa discussão já ocorreu no passado. Por que ela está de volta?

Michael Roth – É uma conversa antiga nos EUA e sempre surge em vários países.

A ansiedade na economia muitas vezes origina o debate sobre as dimensões utilitárias da educação. Isso também está ligado ao aumento da desigualdade e ao medo de que as pessoas possam cair para segmentos sociais inferiores.

Qual é o impacto da crise de 2008 no sistema educacional nos EUA?

Ela erodiu as doações de apoio em muitas instituições. Mas, ainda mais importante, reduziu a vontade política de apoiar o ensino superior com receitas de impostos. O alto desemprego criou mais ansiedade sobre a conexão entre resultados educacionais e perspectivas de emprego.

No livro, o sr. mostra que a atuação da academia foi vista como a serviço das elites.

Nos EUA, ela também tem sido vista como um veículo de mobilidade social.

Desde Thomas Jefferson, pensadores norte-americanos têm defendido que a educação pode proteger os cidadãos contra a tirania política e levar ao avanço econômico. De outro lado, as elites podem usar o ensino superior para concentrar capital social.

A educação é ainda um fator importante na redução de desigualdades? A privatização do ensino é uma forma de aumentar a desigualdade social?

A educação continua essencial para criar mobilidade social ou reduzir desigualdade. Se falharmos em capturar os sistemas educacionais para criar mobilidade social, eles serão usados pelas elites para cimentar privilégios sociais.

Como o sr. avalia a especialização, a fragmentação na educação. É também uma forma de aprofundar desigualdades?

A especialização tem desempenhado um importante papel nas universidades desde os meados do século 19. Isso muitas vezes aconteceu às custas de uma formação ampla, contextualizada.

A fragmentação das instituições em unidades por disciplina pode torná-las menos eficazes na educação das pessoas de forma integral.

E o papel do Estado? É preciso um sistema de ensino robusto para enfrentar desigualdades?

Sim, o Estado tem uma obrigação importante de apoio à educação. Uma política saudável é essencial para cultivar uma cidadania educada.

No livro “Capital no Século 21”, Thomas Piketty afirma que o atual modelo educacional norte-americano reforça as elites e mina os fundamentos da meritocracia. Segundo ele, apenas membros de uma superelite podem estudar em universidades de primeiro nível, que têm critérios de admissão pouco transparentes e tendem a favorecer as famílias da elite. Isso é verdadeiro?

Embora as instituições de elite usem critérios de admissão que tendem a favorecer os ricos, é importante notar que também têm programas robustos de ajuda financeira. Todos os anos, milhares de alunos de baixa renda se inscrevem nessas escolas e não pagam mensalidades.

Assim, embora seja verdade que os ricos têm grandes vantagens, as universidades continuam sendo um lugar onde os de baixa renda e as minorias podem ter acesso ao aprendizado que lhes vai ser útil após a graduação.

O sr. lembra em seu livro que Steve Jobs e Bill Gates, ícones da engenhosidade norte-americana, abandonaram a universidade. O que isso significa?

Muitas pessoas citam empreendedores bem-sucedidos em tecnologia (Mark Zuckerberg, do Facebook, por exemplo) para apontar a importância da inovação em oposição à educação. Curiosamente, a maioria dos empreendedores de tecnologia não menospreza a importância de frequentar uma universidade.

Qual sua visão sobre o sistema de cotas na educação?

Embora considere errado um sistema rigoroso de cotas, penso que ações afirmativas são importantes para tornar universidades mais diversificadas e produtivas. Também promovem justiça social.

O que docentes e formuladores de políticas educacionais podem extrair de seu livro?

Que uma educação de forma abrangente e contextualizada pode ser a forma mais pragmática de aprendizado no mundo contemporâneo.

Num país de rápida transformação como o Brasil, é vital que as pessoas possam aprender a aprender, para que possam contribuir para a cultura e a sociedade muito tempo depois da graduação.

 

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