Projeto canadense faz jovem romper ciclo da pobreza

Porvir – 02/10/13  – 

No ano 2000, quando um professor contou aos seus alunos da comunidade Regent Park, em Toronto, no Canadá, que se criara naquela área, uma das mais pobres do país, eles não acreditaram.  Sem esperanças em relação ao futuro, não achavam factível que alguém dali pudesse escapar da pobreza e criminalidade e se tornar um educador. No mesmo ano, aconteceram nove assassinatos na região onde moram 15 mil pessoas, a maioria delas imigrantes refugiados de guerras que são abrigados pelo governo em uma espécie de condomínio público para necessitados.

Esse tipo de situação deixava a enfermeira Carolyn Acker, à época diretora executiva do centro de saúde da comunidade, inconsolável. Atuando desde 1994 em programas médicos para melhorar a vida das pessoas, como pré-natal para grávidas e atendimentos especializados para crianças de zero a três anos, ela não conseguia ver seu trabalho fazer alguma diferença.

 

crédito lily / Fotolia.comProjeto canadense quebra ciclo de pobreza entre refugiados

 

Eles precisavam do dinheiro para o ônibus, precisavam de ajuda para fazer o dever de casa, porque muitas vezes seus pais nem falavam inglês, e precisavam saber que tinham outras oportunidades. Nós demos tudo isso a eles

“Eu não suportava ver crianças se matando e ficava me perguntando o que estava errado”, relembra Carolyn, idealizadora e fundadora do projeto Pathways to Education, que após cinco anos conseguiu quebrar o ciclo da pobreza em Regent Park através do apoio abrangente a estudantes do ensino médio. O programa, implantado atualmente em 12 comunidades no Canadá, é um dos seis vencedores do WISE Awards, prêmio internacional que destaca ideias inovadoras em educação e cujo vencedor será conhecido neste mês, em Doha, no Qatar.

“Eu estava lá para fornecer cuidados médicos, mas quando você trabalha numa comunidade pobre logo descobre que médicos, enfermeiros e dentistas não melhoram a saúde da população. Para ser saudável, é preciso ser bem educado”, disse em entrevista ao Porvir.

Partindo dessa premissa, Carolyn abandonou os programas que estava desenvolvendo e passou a trabalhar com outro foco. Ela queria que os jovens criados na comunidade se tornassem médicos, enfermeiras, assistentes sociais e administradores do centro comunitário. Sem saber exatamente como fazer isso, encontrou respostas conversando com a própria população. “As pessoas sabem quais são os seus problemas. Nós que viemos de fora e temos outra realidade não devemos dizer a elas o que têm que fazer. Nas pesquisas que desenvolvemos com representantes da comunidade [focus group] em várias línguas, todos disseram: nós precisamos de ensino e emprego”.

Baseado em diversas consultas e dados que mostravam que a evasão no ensino médio em Regent Park era de 56%, enquanto a média em Toronto era de 22%, e que apenas 20% dos que concluíam a etapa seguiam estudando, em 2001 foi implantado um sistema amplo de suporte aos alunos que estavam iniciando a 9a série naquela área. “Eles precisavam do dinheiro para o ônibus, precisavam de ajuda para fazer o dever de casa, porque muitas vezes seus pais nem falavam inglês, e precisavam saber que tinham outras oportunidades. Nós demos tudo isso a eles”, explica Carolyn.

Para colocar em prática o programa, Carolyn ainda fez questão do que considera até hoje o elemento mais importante do Pathways to Education: o comprometimento dos participantes. Os pais e alunos tiveram que se inscrever e assinar um compromisso para participar do programa, que fornece tíquete de ônibus, uma bolsa para os alunos, tutoria à noite 4 vezes por semana e sessões de aconselhamento sobre dúvidas em relação à carreira e outras dificuldades que não envolvem apenas o aprendizado na sala de aula. A maior parte dessas aulas extras e reuniões de acompanhamento eram (e ainda são) feitas por voluntários.

Em 2006, o trabalho já dava resultados entre os jovens de Regent Park, que passaram a ter novas perspectivas e a acreditar que poderiam ser professores, médicos ou advogados. A taxa de evasão em Regent Park caiu para 13% e 83% dos concluintes do ensino médio frequentaram outros cursos depois dessa etapa. Segundo Carolyn, o sucesso do programa é garantido pela integração dos diferentes tipos de suporte oferecidos –  financeiro, acadêmico e social – e não seria o mesmo se os alunos só passassem por tutoria ou só recebessem dinheiro, por exemplo.

“Demorou cinco anos para acabar com a cultura do fracasso, e os alunos que agora vão para a universidade dizem que a conversa mudou na comunidade. Eles não falam mais em desistir dos estudos ou na vida do crime. Agora eles perguntam: para qual faculdade você vai depois de terminar o ensino médio?”, conta orgulhosa a fundadora do Pathways to Education.

Financiamento e expansão

Atualmente, 4.000 alunos são atendidos dessa forma em todo o país e muitos dos jovens formados já estão atuando como voluntários em suas comunidades porque sabem como esse suporte fez diferença para eles melhorarem suas vidas

Para concretizar a primeira etapa do programa, que até então era apenas uma experiência sem garantia de eficiência, Carolyn buscou financiamento durante dois anos, até que duas instituições decidiram apoiá-la. Cinco anos depois, já com resultados concretos e uma avaliação do Boston Conulting Group que concluiu que o retorno social do programa era de US$ 24 para cada US$ 1 investido, o Pathways to Education conseguiu também atrair apoio do governo.

Novas comunidades receberam o programa, com um novo modelo de financiamento, que é dividido em três partes: um terço do governo federal, um do governo municipal e um da iniciativa privada e de doações de indivíduos.  Mas além do dinheiro, para implantar a rede de suporte é necessário que haja interesse da população local.

A primeira coisa que a comunidade deve fazer para ter acesso ao programa é pesquisar o índice de evasão local no ensino médio. Depois, pais e alunos devem conversar em grupos e definir o que desejam da iniciativa. Se esses requisitos forem preenchidos, a Pathways to Education então transfere conhecimento e recursos para outras organizações aplicarem seu modelo. “Atualmente, 4.000 alunos são atendidos dessa forma em todo o país e muitos dos jovens formados já estão atuando como voluntários em suas comunidades porque sabem como esse suporte fez diferença para eles melhorarem suas vidas”, conclui Carolyn Acker.

Atualização realizada às 18h37: atualizamos a informação de que o projeto era finalista do WISE Awards; na verdade, ele é um dos vencedores.

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