Para 70% dos jovens, o bom professor entende de internet e tecnologia

Fonte: Gazeta do Povo (PR) – 17 de outubro de 2014

Estudantes querem que seus docentes usem os dispositivos e recursos existentes tanto quanto eles. Expectativa, no entanto, é frustrada, mostra pesquisa
Uma pesquisa realizada pelo Ibope e pelo Instituto Paulo Montenegro, a pedido da Fundação Telefônica Vivo, mostrou que cerca de 70% dos jovens internautas brasileiros confiam mais em professores que sabem usar internet e recursos tecnológicos como instrumentos de aprendizagem. No entanto, quando o resultado é comparado com levantamentos sobre o comportamento dos docentes, nota-se a discrepância entre a expectativa dos alunos e as opções de seus professores. Um estudo divulgado no ano passado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) mostrou que só 2% dos professores usam a internet em sala de aula.

Na pesquisa da Fundação Telefônica, intitulada “Ju­­ventude Conectada”, 47% dos entrevistados disseram concordar totalmente com a afirmação de que um bom professor é aquele que sabe usar a internet e recursos tecnológicos para ajudar no aprendizado dos alunos. Outros 23% disseram concordar mais do que discordar da afirmação.

A maioria dos jovens ouvidos também afirmou já ter aprendido na internet coisas úteis à vida ou ao trabalho, que não aprenderiam na escola ou na faculdade. Sobre essa afirmação, 45% concordaram totalmente, enquanto 24% disseram concordar mais do que discordar. A pesquisa ouviu 1.440 jovens.

Escola

Em 2013, os resultados do estudo da CGI.br, entidade oficial responsável por coordenar os serviços de web no país, mostraram que o pouco uso de internet e recursos tecnológicos por professores em sala de aula já não pode ser justificado pela falta de acesso. Depois de ouvir 1.236 professores de escolas públicas de todas as regiões do país, o estudo mostrou que 99% dos docentes são usuários de internet, 92% têm acesso em casa e 89% afirmaram que a escola onde trabalham também dispõe de conexão à rede.

Relacionamento

Apesar da distância entre aquilo que os professores fazem com tecnologia e aquilo que os alunos esperam, 47% dos estudantes afirmaram aprender mais em aulas presenciais do que em aulas on-line. Para o gerente de Inovação Social da Fundação Telefônica, Luis Fernando Guggenberger, esse resultado mostra, por um lado, que a tecnologia não substitui o professor, mas aponta também que a maior expectativa dos estudantes não está, exclusivamente, no uso de tecnologia em sala de aula, mas diz respeito à relação com seus docentes.

“Há um grande desejo dos jovens internautas no que diz respeito a relacionamentos. Eles esperam que seus professores estejam tão antenados quanto eles nesses temas digitais, para que, assim, estejam disponíveis para além da sala de aula”, diz Guggenberger, referindo-se ao interesse dos estudantes em conversar e tirar dúvidas com seus professores via redes sociais, por exemplo.

O texto do estudo informa ainda que a adoção de práticas de compartilhamento de material didático em blogs, e-mails, redes sociais e outras ferramentas digitais por escolas e professores é vista como positiva pelos jovens internautas ao longo de toda a pesquisa.

Educadores precisam correr atrás do prejuízo

Para analistas, embora seja crescente o uso de recursos tecnológicos por professores de educação básica, a escola pública, principalmente, ainda está longe de aproveitar todo o potencial que as novas mídias teriam para a aprendizagem. O professor do curso de Pedagogia na Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) João Roberto Mendes diz que mesmo os profissionais mais propensos a usar tecnologia, frequentemente limitam-se a apresentar conteúdos referentes às suas aulas, mas raramente são planejadas atividades com foco na construção do conhecimento a partir das buscas feitas pelos estudantes na internet. “Pouco se enfoca uma perspectiva que aproveita a familiaridade que as crianças e adolescentes apresentam em relação aos recursos tecnológicos, como editores de vídeos, blog educativos, wiki, podcast e outros”, diz.

Mendes acredita que isso ocorre tanto pela falta de percepção do potencial interativo e educativo das novas mídias, por parte dos professores, quanto pelas limitações de acesso às ferramentas interativas, já que é comum o bloqueio do acesso a redes sociais e sites semelhantes em laboratórios de informática escolares. “Tem-se, de forma geral, a ideia de que essas ferramentas são utilizadas apenas para o lazer, ou para ‘saber da vida alheia’, quando na verdade é significativo o número de artigos científicos que mostram bons aproveitamentos de seu potencial interativo em sala de aula.”

O diretor do colégio Po­sitivo, Celso Hartman, alerta que é preciso cautela para não se culpar excessivamente os docentes. “Muitos professores vêm de uma realidade que não é a de usar tecnologia como instrumento de trabalho. Muitas vezes cabe aos gestores a tarefa de conhecer as possibilidades tecnológicas e de motivar o seu uso junto do corpo docente e dos alunos”, destaca.

Ele lembra que os cursos de licenciatura em geral não têm acompanhado a velocidade das novas tecnologias educacionais, o que contribui para a formação de profissionais pouco preparados para aproveitar todos os benefícios da internet na aprendizagem.

>Produção on-line desde cedo

Os alunos do 6º ao 9º ano do ensino fundamental acompanhados pela professora Sandra Tissot (foto), da Escola Municipal Papa João XXIII, não têm do que reclamar quanto ao uso de novas mídias. Sandra é responsável pelo projeto que mantém o jornal estudantil da escola há nove anos, e, atenta à migração dos grandes jornais ao mundo digital, ela desenvolveu junto das crianças o site PapaInforma, a versão online – e mais interativa – do informativo impresso. “Recentemente fomos na GibiCon, o evento sobre histórias em quadrinhos. Os alunos fotografaram com celulares e escreveram sobre aquilo de que gostaram”, conta Sandra, que recebe todas as contribuições dos alunos para o site via Facebook.
>Regiões Sul e Sudeste são as que produzem mais conteúdos digitais

A pesquisa da Fundação Telefônica Vivo também fez um levantamento sobre hábitos dos internautas em cada região do país. No que diz respeito à leitura diária ou quase diária de e-books, os jovens do Sul são maioria: 17% afirmaram ler livros em formato digital na região, contra 15% do Sudeste. As duas regiões também lideram a criação de conteúdos digitais, como a produção de blogs e videologs, sendo que 21% dos jovens conectados do Sul disseram já ter desenvolvido algo de sua autoria na internet, e 19% no Sudeste.

Para o gerente de Ino­­vação Social da Fundação Telefônica Vivo, Luis Fer­­nando Guggenberger, os jovens do Sul têm assumido um novo papel no uso da internet e que tem grande potencial para ser aproveitado nas escolas. Embora haja muito acesso a sites de informação – 19% dizem acessar sites de revistas – Guggenberger destaca que os jovens dessa região não se contentam em consumir o que está na internet, mas têm mostrado um forte perfil de produtores de conteúdo digital.

Mídias sociais
Os jovens das capitais do Sul também aparecem como aqueles que menos tempo passam em redes sociais. Somente 39% dos entrevistados da região disseram acessar sites como Facebook e Twitter mais de uma vez ao dia. No Sudeste, esse número chegou a 60%, e no Nordeste, 66%.

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