Opinião: Enem – um instrumento de mobilidade educacional e social

Fonte: Correio Braziliense (DF)  – 24 de novembro de 2014

“O Enem cumpre o papel de mostrar ao Brasil que existe um caminho viável de ampliação do acesso à universidade”, afirma Ricardo Henriques
O Exame Nacional do Ensino médio (Enem) foi criado em 1998 com o objetivo de avaliar o desempenho do estudante ao fim do Ensino básico e contribuir para a melhoria da qualidade dessa etapa Escolar.

Passados 16 anos, porém, o Enem adquiriu outros atributos, como servir de acesso ao Ensino superior em universidades públicas por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e em universidades privadas por intermédio do Programa Universidade para Todos (ProUni) e do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies). Hoje, o Enem estimula cada vez mais jovens a projetar uma visão de futuro e a construir projetos de vida que passem pelo Ensino superior. Com a enorme desigualdade brasileira, o Enem se tornou importante instrumento de mobilidade educacional e social.

Recente estudo com cerca de 4,7 mil Alunos do Ensino médio noturno em 33 Escolas da rede pública do Rio de Janeiro e de São Paulo, elaborado pelo Instituto Unibanco, mostrou que a maioria (78,7%) gostaria de obter qualificação profissional, depois de finalizada essa etapa educacional, e 63% pretendem fazer a prova do Enem para ter acesso à universidade.

O exame é visto pelos jovens como forma de concretizar o sonho do curso superior, o que significa para muitos ter um futuro promissor, um bom emprego e um bom salário. Se até os estudantes do Ensino noturno, que vivem realidade educacional mais árdua, estão se permitindo sonhar em fazer faculdade, pode-se afirmar que o Enem representa grande transformação nas expectativas desses jovens.

Há evidente avanço nas políticas de acesso ao Ensino superior nos últimos anos. E o Enem faz parte dessa conquista, na medida em que proporciona um caminho de acesso comum à universidade para todos os estudantes do Ensino médio no Brasil. A relação entre mérito e equidade fortalece a capacidade de enfrentar o desafio da desigualdade regional no Brasil, possibilitando a migração de uma região para outra, a troca de experiências, culturas e conhecimentos.

A questão que ainda se impõe é: será que o Ensino médio de hoje realmente ajuda os jovens a construírem projetos de vida? A juventude é heterogênea e possui formas sofisticadas de olhar o mundo.

O Ensino médio, porém, não atende a esse olhar. Temos que fazer urgentemente mudanças para melhorar a qualidade do Ensino médio, para que as disciplinas não sejam tão conteudísticas e para que o estudante não fique fechado em uma Escola desconectada do mundo exterior. É necessário oferecer caminhos possíveis para os jovens fazerem suas escolhas de acordo com suas vocações e seus interesses. Nesse sentido, uma reforma no currículo Escolar também é fundamental, para que o jovem se interesse pela Escola e não a abandone.

O Enem cumpre o papel de mostrar ao Brasil que existe um caminho viável de ampliação do acesso à universidade, embora existam outros caminhos de realizações profissionais para o jovem hoje. No entanto, para que possa contribuir com a construção de uma Educação transformadora, é preciso refletir se o exame traduz o que os jovens precisam aprender na sociedade contemporânea do século 21, em termos cognitivos e não cognitivos.

Para concluir, é necessário que as políticas educacionais de acesso ao Ensino superior dialoguem com as políticas de juventude. Nosso principal desafio é olhar para a juventude e enxergar suas múltiplas complexidades. Só será possível enfrentar as desigualdades se nós conseguirmos articular os anseios e a contemporaneidade da juventude com uma Educação adequada ao século 21. Um caminho que o Enem tem traçado com relativo sucesso, resultado de todos os esforços já feitos, mas que certamente pode avançar ainda mais.

*RICARDO HENRIQUES
Economista, é superintendente executivo do Instituto Unibanco, Professor licenciado do Departamento de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro do Conselho de Administração do Instituto Internacional de Planejamento da Educação (IIPE) da Unesco

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