O impacto das cotas sociais

Fonte: Correio Braziliense (DF)  – 21 de fevereiro de 2015

Aumento de reserva de vagas para cotistas resultou em mais inscrições nos vestibulares de faculdades privadas e evidencia a necessidade de melhorar a qualidade do Ensino Médio

O sistema de cotas para o ingresso de Alunos da rede pública de Ensino na Universidade de Brasília (UnB), desde quando passou a ser aplicado — em 2013 —, provoca polêmicas e dúvidas sobre o funcionamento. Ele começou de forma progressiva, com 12,5 % das reservas. Este ano, alcança 37,5% e, em 2016, chegará a 50%. O impacto começa a ser sentido, com o aumento da dificuldade para o ingresso de quem não está incluído em nenhuma política afirmativa. Resultou em mais inscrições nos vestibulares de faculdades privadas e ainda evidencia a necessidade de melhorar a qualidade do Ensino médio público na capital do país.

Para suprir as carências de conteúdo e aumentar as chances, Alunos procuram cursos preparatórios, que tiveram acréscimo de 15% a 20% nas matrículas.

Existem hoje três formas principais de seleção para ingressar em um curso de graduação na UnB: o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que usa as notas do Enem na classificação dos candidatos; o Programa de Avaliação Seriada (PAS) e o vestibular tradicional, que ocorre somente no meio do ano. A partir de 2016, 50% das vagas de todas elas serão destinadas somente aos estudantes que concluíram todo o Ensino médio em Escolas da rede pública de Ensino, contemplados pela Lei Nº 12.711, de 2012.

O documento, popularmente denominado de lei das cotas sociais, divide os estudantes em quatro grupos diferentes: candidatos com renda familiar menor ou igual a 1,5 salário mínimo per capita que se consideram pretos, pardos ou indígenas (PPI) e os que não se enquadram nas questões raciais. Candidatos com renda familiar maior que 1,5 salário mínimo per capita que se consideram PPI e aqueles que não se autodeclaram PPI (veja quadro).
Se pegarmos o exemplo anterior das cotas, observaremos que, no início, o desempenho deles (cotistas) foi inferior, mas, ao longo do tempo, melhorou. E nossos egressos saíram da UnB muito bem formados” Ivan Camargo, reitor da UnB
Além disso, são destinadas 5% das oportunidades aos candidatos que se consideram negros, oriundos de qualquer rede de Ensino. No fim, serão 55% das vagas para cotas (sociais e raciais) e 45% para o sistema universal. “Com as cotas raciais, uma experiência de mais de 10 anos, observamos que o perfil da UnB mudou de fato.

A diversidade aumentou. Para as cotas sociais, é preciso um pouco mais de tempo para ver os resultados, mas tenho esperança de que será positivo”, afirma o reitor da UnB, Ivan Camargo.
Uma alteração nítida após a adoção do Sisu e das cotas foi o aumento dos Alunos da assistência estudantil. Em 2013, eram 3.216. No ano seguinte, passou para 4.132 assistidos, um acréscimo de quase 30%. “Se pegarmos o exemplo anterior das cotas, observaremos que, no início, o desempenho deles foi inferior, mas, ao longo do tempo, melhorou. E nossos egressos saíram da UnB muito bem formados”, completa o reitor. Para manter a qualidade, ele pretende aliar o corpo Docente capacitado com o acolhimento aos estudantes. “Os Alunos precisam de referências. Eles terão todo o apoio na UnB.”
Reforço
A instituição das cotas na UnB evidencia um problema antigo do Distrito Federal: a má qualidade do Ensino médio. Último resultado do Índice de Desenvolvimento da Educação básica (Ideb) traz a capital brasileira na 12ª colocação no ranking nacional, quando o assunto é a última etapa da Educação básica. Para chegar mais perto da aprovação, os pais têm buscado cursinhos preparatórios nos contraturnos das Escolas. O diretor do Único, Robson Arrais, afirma que o número de Alunos cresceu 15% nos últimos três anos. “O aumento se dá devido à competitividade, acirrada ainda mais com a implantação dos sistemas de cotas e do Sisu”, acredita.
Para ele, os Alunos de Escolas públicas passam a ter mais chances com as vagas reservadas, mas isso não é o suficiente para garantir a aprovação. Na unidade do Único de Taguatinga, 30% dos estudantes são da rede pública. Arrais reforça o foco na classe B, composta de pais que poderiam pagar uma Escola particular mediana com esforço, mas deixam os filhos na rede pública e pagam por cursos preparatórios. “Assim, eles têm esse treinamento de qualidade para o vestibular e a possibilidade de usar o sistema de cotas.”
O CEO da Rede Educacional Alub, Alexandre Crispi, também acredita que as cotas sociais são um dos fatores que provocaram a procura pelos cursos preparatórios. “Quem não tem condição de pagar um colégio particular opta pelo cursinho. É mais em conta e ajuda a preparar o Aluno.” Em 2015, o Alub abriu novas turmas e, somente no último ano, teve um crescimento de quase 20% no número de estudantes.

Crispi, no entanto, não percebe um movimento de migração das Escolas particulares. “A nota do Enem de Alunos da rede privada é muito superior. O cursinho é uma alternativa mais barata para os que não têm muitas opções”, ressalta. A estudante do colégio Paulo Freire, na Asa Norte, Larissa dos Santos Sousa, 16 anos, está no 3º ano do Ensino médio e faz um curso preparatório. Ela estuda no colégio público perto de casa e acredita que o custo-benefício vale a pena. “Tem muitas coisas que ainda não estão ideais, mas é uma Escola boa. Para suprir as falhas, optei pelo cursinho”, conta a candidata a uma vaga no curso de engenharia civil.

Ela acredita que as reservas para Alunos da rede pública são uma solução temporária. “É justo fazer isso para dar oportunidade igual para todos, mas a solução verdadeira seria melhorar o Ensino público e a condição socioeconômica das pessoas”, completa. O pai de Larissa, Luís Carlos Sousa, 58 anos, confia na rede pública, embora ache necessário o reforço. “Meus outros dois filhos estudaram no Paulo Freire e, com a ajuda do cursinho, passaram na UnB.”

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