Nenhuma meta global para educação será cumprida até 2015, diz Unesco

AMANDA POLATO – Época – 29/01/2014

O Brasil ainda tem desafios críticos a enfrentar, como o grande número de analfabetos

Em 2000, mais de 160 países se comprometeram a atingir seis metas de educação. A um ano para o fim do prazo, a Unesco, Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura, prevê que nenhuma será alcançada. Os objetivos eram básicos, mas desafiadores: ampliar a cobertura da educação pré-primária, universalizar o acesso das crianças à educação primária, garantir que jovens desenvolvam habilidades para o mundo do trabalho, reduzir em 50% o analfabetismo adulto, eliminar desigualdades de oportunidades para meninos e meninas e, por fim, melhorar a qualidade do ensino. Mas o Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos, divulgado nesta quarta-feira (29), mostra que globalmente as políticas perderam força.

“Desde 2000, houve um enorme avanço em incluir mais crianças no ensino primário e crianças mais novas no ensino pré-primário. No entanto, nos últimos anos, o progresso diminuiu. Isso começou a ser observado em 2004 e a redução do ritmo ficou clara a partir de 2008”, diz a ÉPOCA Nicole Bella, analista de políticas educacionais na sede da Unesco, em Paris. Cada país enfrenta um tipo de dificuldade. Guerras, conflitos, crises econômicas e problemas nos próprios sistemas de ensino afastam 57 milhões de crianças e 69 milhões de adolescentes dos bancos escolares. “Se a qualidade da educação não é boa, isso tende a fazer com que os alunos abandonem a escola. Os países não podem olhar apenas para os números de matrículas. É preciso ter uma visão holística da educação”, afirma Nicole.

O relatório da Unesco diz que o mundo perde US$ 129 bilhões por ano ao manter alunos em escolas que não ensinam nem os conhecimentos básicos. Mais de 250 milhões estão nessa situação. A “crise da aprendizagem” deixa um em cada quatro jovens de países pobres incapaz de ler uma simples frase. Na América Latina e no Caribe, cerca de 10% das crianças do primário não sabem o básico de leitura e 30% não têm o básico de matemática. Os dados são de 2011 e, portanto, não incluem os resultados mais recentes do Pisa, avaliação internacional conduzida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que foram divulgados em dezembro de 2013. “Mesmo edições anteriores do Pisa mostram que o Brasil tem problemas na qualidade do ensino, mas é um dos países que estão se esforçando para resolvê-los”, afirma Nicole Bella.

De modo geral, o relatório destaca o Brasil como um bom exemplo em comparação a outros países, em especial os da África Subsaariana e Ásia. As realidades, claro, são muito diferentes. No Malawi, há em média 130 crianças por sala na primeira série. No Brasil, são 21. “Perto de outros países, realmente temos muitas coisas para mostrar. É importante perceber que o Brasil tem avanços, mas também temos pontos críticos, como a baixa cobertura da educação infantil, o grande número de analfabetos e a baixa qualificação dos jovens”, diz a coordenadora de educação da Unesco no Brasil, Rebeca Otero.

O Brasil está entre os dez países com maior número de analfabetos do mundo. Em 2011, havia 774 milhões de adultos analfabetos em todo o globo, uma redução de apenas 1% desde 2000. Projeta-se que até 2015 esse número cairá ligeiramente, para 743 milhões. O Brasil registrou 12,9 milhões de pessoas com mais de 15 anos analfabetas em 2011. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) divulgados no ano passado, a taxa de analfabetismo foi estimada em 8,7%, o que correspondeu ao contingente de 13,2 milhões. Foi a primeira vez que o índice subiu em 15 anos, justamente o período em que os esforços deveriam ter sido maiores para reduzi-lo.

Rebeca Otero avalia que as políticas contra o analfabetismo, como o Brasil Alfabetizado, precisam ser mais agressivas, com maior penetração no campo e intensa mobilização dos três níveis de governo, federal, estadual e municipal.

Nicole Bella, uma das autoras do relatório da Unesco, diz que o nível educacional das crianças também depende da escolaridade dos adultos, já que pais educados, em geral, assumem o compromisso de manter os filhos na escola e tendem a acompanhar seu desempenho. “Quando as crianças vão para casa, precisam do apoio dos pais, por isso é tão importante que eles saibam ler e escrever. Infelizmente, as metas de combate ao analfabetismo são as mais negligenciadas no mundo”, afirma a pesquisadora.

Financiamento da educação

A Unesco diz que um dos maiores entraves para o cumprimento de objetivos na educação é o financiamento insuficiente. “O deficit no financiamento para se alcançar uma educação básica de qualidade para todos, até 2015, chegou a US$ 26 bilhões. […] Restando pouco tempo até 2015, parece impossível preencher a lacuna do financiamento”, afirma o relatório.

Os gastos governamentais com educação aumentaram, em média, de 4,6% para 5,1% do Produto Interno Bruto (PIB), entre 1999 e 2011. A recomendação do órgão da ONU é que a taxa chegue a, pelo menos, 6% em todos os países. O Brasil já alcançou essa meta, mas movimentos sociais e entidades educacionais exigem 10% do PIB para a educação. No Congresso, um projeto de lei que estabelece esse valor, o Plano Nacional da Educação (PNE), ainda aguarda votação.

No entanto, apenas aumentar o volume de dinheiro disponível não resolve todos os problemas, diz a coordenadora de educação da Unesco no Brasil. “É preciso analisar como os recursos são usados. Precisamos de uma gestão por resultados. Não adianta, por exemplo, comprar um ônibus para transportar alunos em uma estrada esburacada na zona rural sem prever gastos com manutenção. Em pouco tempo, o ônibus quebra e fica encostado. Essa discussão de otimização dos gastos têm de ser feita com os Estados e os municípios”, afirma Rebeca.

Como mudar?

O Relatório de Monitoramento Global deste ano, que está em sua 11ª edição, olha para os professores como a chave para transformação da situação dramática da educação pelo mundo. O fato mais preocupante é o deficit de profissionais qualificados. Se o prazo para universalização da educação primária fosse prorrogado até 2020, seria necessário contratar mais 13,1 milhões de professores. Há países que não conseguem suprir a demanda por falta de pessoas com pelo menos o secundário completo. No Níger, por exemplo, 25% dos formados no ensino médio deveriam ir para as salas de aula, mas apenas 3%, em média, escolhem essa carreira.

O documento também fala sobre a necessidade de atrair talentos para a educação e oferecer bons salários e benefícios. O sistema de bonificação de escolas com bom desempenho em avaliações, adotado por cidades e Estados brasileiros, é visto pela Unesco como uma maneira interessante para melhorar os índices educacionais e motivar os docentes.

“Também é importante treinar os professores. Eles devem ter habilidades práticas, além das teóricas”, afirma Nicole Bella. Tanto a qualificação inicial quanto a contínua são recomendações do órgão da ONU para transformar a educação.

Outra estratégia é enviar bons profissionais para os locais mais remotos, com o objetivo de diminuir as desigualdades sociais e regionais.

“Para acabar com a crise da aprendizagem, todos os países, ricos e pobres, devem garantir que todas as crianças tenham acesso a professores treinados e motivados. […] Implementando essas reformas, os países serão capazes de garantir que todas as crianças e jovens, principalmente os desfavorecidos, receberão a educação de qualidade de que necessitam para desenvolver seu potencial e se realizar na vida”, afirma o relatório.

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