Mais que palavras e imagens

Gazeta do Povo – Publicado em 23/04/13 – Jônatas Dias Lima

O plano do MEC de incluir, em 2015, livros digitais como recurso didático no ensino médio leva editoras a repensarem seus produtos

O recente anúncio do Mi­­nistério da Educação (MEC) de que incluirá livros digitais no Programa Nacional do Livro Didático voltado ao ensino médio mexeu com o mercado editorial no país, principalmente pela exigência explícita do uso de recursos que vão muito além da mera transposição de texto e imagens para uma tela de computador ou tablet. As editoras que pretendem colocar suas obras nas salas de aula da rede pública em 2015 precisam incluir uma série de ferramentas virtuais que acrescentem relevância ao produto enquanto instrumento de aprendizagem.

Reprodução/ View Comunicação

Reprodução/ View Comunicação / O livro Aqua­riaroom, de Francesco Zullino Yunes, foi adaptado para o formato digital

O livro Aqua­riaroom, de Francesco Zullino Yunes, foi adaptado para o formato digital

E-book

Embora o termo e-book também seja usado para designar um livro digital, as editoras preferem diferenciar os produtos. O e-book está relacionado a livros de literatura em formato digital – não é usado para livros didáticos. Nos dois casos, o layout pode ser fixo ou variável (quando o número de páginas e a disposição das imagens mudam conforme a preferência do leitor em segurar o tablet ou smartphone). Já textos em PDF não são considerados nem um nem outro, devido à falta de recursos multimídia.

Conforme o edital do MEC, a inscrição de obras multimídia pode ser feita até 21 de maio e precisa ser acompanhada de um livro impresso com o mesmo conteúdo. As versões digitais deverão ter vídeos, áudios, animações, infográficos, mapas interativos, páginas da web e outros objetos que complementem as informações contidas nos textos escritos. Além disso, é necessário que se adaptem a diferentes plataformas, como tablets, smartphones, computadores, e possam ser acessadas pela internet.

Segundo Rogério Ver­deroce Vieira, sócio-proprietário da produtora de conteúdo digital View Comunicação, a preocupação do MEC em especificar os recursos exigidos é compreensível, já que muitos livros digitais produzidos hoje são simples demais e acrescentam pouco à versão impressa. Como o investimento do MEC no programa gira em torno de R$ 1 bilhão, o setor certamente passará por uma evolução nos próximos anos.

“As editoras passarão a exigir mais complexidade das produtoras de conteúdo digital porque o que se fazia até agora era mais ligado a brincadeiras e jogos do que ao ensino de fato”, diz Vieira. Ele conta que uma das dificuldades no setor é a adaptação dos autores de livros didáticos tradicionais às novas opções que o livro digital oferece.

Capacitação

O diretor-geral da Editora Positivo, Emerson Walter Santos, explica que uma confusão comum sobre o conceito de livro digital é pensar nele apenas como um livro no computador, semelhante aos arquivos em formato PDF. No entanto, a possibilidade de estudar com simuladores em uma aula de Ciências ou arquivos de áudio com a pronúncia correta em uma aula de idiomas proporciona experiências de aprendizagem bastante diferentes em relação à simples leitura de um texto.

A editora formou no último ano aproximadamente 120 mil professores em capacitações, oficinas e workshops que tratavam do uso de livros digitais. Na avaliação de Santos, as escolas passam por um momento peculiar, já que os alunos tendem a dominar muito melhor a tecnologia do que os professores. Com esse desequilíbrio, deve aumentar a procura de docentes por formação específica sobre livros digitais.

Avaliação

Otimismo e alertas para o bom uso de tablets nas escolas

A inclusão de livros digitais na educação pública chama a atenção sobre o uso da nova ferramenta. A coordenadora do curso de Pedagogia da UniBrasil, Paulla Helena de Carvalho, lembra que o livro impresso ou digital é um meio que não garante por si só a aprendizagem dos alunos. Para ela, as vantagens do livro digital, a princípio, parecem muito mais econômicas do que pedagógicas. “Há um enorme gasto do ministério [da Educação] com impressão e envio de livros. Nesse aspecto, parece ser uma opção válida”, diz.

Mas o benefício de poder acessar o livro pela internet traz outra questão à tona. “Onde os alunos vão acessar os livros? É enorme a quantidade de escolas no Brasil que não têm acesso à internet”, destaca Paulla. Para a professora, o livro digital será apenas um complemento ao material didático tradicional e não deverá ser usado com igualdade por todas as redes públicas. Dos 600 mil tablets prometidos pelo Ministério da Educação em fevereiro de 2012, apenas 382.317 foram entregues a professores do ensino médio até fevereiro deste ano.

Primeiros passos

Profissionais da rede privada de educação, no entanto, têm aderido aos livros digitais com mais otimismo. Recentemente, um projeto que envolve o uso de iPads rendeu ao Grupo Marista um convite da Apple para participar do lançamento no país do iTunes U, um aplicativo que reúne o conteúdo educacional produzido por escolas do mundo todo. O Colégio Santa Maria, de Curitiba, está entre os primeiros colégios do país a produzir um curso para o iTunes U.

No ano passado, a responsável por tecnologia educacional no Santa Maria, Janete Ranciaro, liderou o desenvolvimento de um e-book sobre o budismo, que foi usado por professores de Ensino Religioso. “Quando recebemos os tablets, baixei alguns aplicativos e vi que havia muita coisa apenas em inglês. Resolvi montar esse projeto de e-book direcionado ao 5º ano”, conta Janete. O sucesso do projeto resultou em mais dois e-books criados pelo próprio colégio. Um sobre o sistema solar, para o 2º ano, e um sobre Geografia, para o 3º ano.

A aluna Khadija Assis Paschoalatto, 11 anos, participou do projeto piloto nas aulas de Ensino Religioso e aprovou a experiência. “Você pode explorar mais. Na aula comum, às vezes, a gente não presta muita atenção. Com o tablet ficava todo mundo bem atento.”

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