Jornalista aborda mitos e verdades do ensino de qualidade

 Folha de São Paulo – 25/10/14

Mais investimento leva sempre a mais aprendizagem. Verdade ou mito? Mito. Maior rigor em sala de aula melhora a qualidade da educação. Verdade ou mito? Verdade.

As conclusões são da jornalista americana Amanda Ripley, 40, autora de “As crianças mais inteligentes do mundo”, que investiga a origem do ótimo desempenho educacional de Finlândia, Coreia do Sul e Polônia.

O livro –considerado por publicações como “The Economist” e “The New York Times” como um dos melhores de 2013– foi lançado nesta semana no Brasil.

A jornalista e escritora norte-americana Amanda Ripley

Folha – Qual é a principal lição em comum de Finlândia, Coreia e Polônia?
A principal lição é que a mudança em nível nacional é possível. Há claramente diferentes caminhos que podem ser tomados. Todos eles envolvem trazer um grande nível de rigor em relação à educação tanto em casa quanto nas escolas. Acho que a forma mais eficiente de conseguir isso é focando em treinamento e na seleção de bons professores.

Quais são os principais mitos em relação à educação?
Acho que o principal mito é que a pobreza das crianças é um problema maior que a pobreza na aprendizagem. Os dois são problemas e eles interagem e pioram um ao outro. Então, quando você melhora um sem melhorar o outro você limita o retorno. Ambos precisam ser trabalhados simultaneamente.
Outro mito é que mais dinheiro leva a mais educação. Isso, claramente, não é verdade. Obviamente, dinheiro é importante, mas acima de determinado nível, você não vê mais dinheiro levando a mais aprendizagem.
A partir de determinado nível, como você investe o dinheiro é muito mais importante do que quanto você gasta. Por exemplo, gastar o dinheiro em recrutamento e treinamento de bons professores e líderes de escolas é muito mais sábio do que gastar dinheiro em tecnologia na sala de aula.

Por que essa crença de que o dinheiro é importante é tão disseminada?
Acho que é algo mais palpável e é muito menos complicado do que levar os dirigentes das escolas a acreditar que o que estão fazendo é importante, educá-los sobre o que eles podem fazer para ajudar seus alunos a aprender, assim como recrutar professores que tenham não apenas um nível excepcional de formação mas também tempo para ver seus pares ensinar. É mais difícil falar disso.
Como em empresas, é mais fácil falar sobre os preços do que a qualidade dos produtos.

Por que o modelo sul coreano é tão badalado apesar de seus excessos?
Acho que a Coreia do Sul recebe uma atenção merecida pela habilidade impressionante de seus alunos que é quase independente da renda de suas famílias, o que é incrível. O problema é que o caminho que leva a isso é cruel e estressante para todos. É curioso que na Coreia as pessoas são muito mais críticas sobre seu sistema educacional do que fora.
Há muitas coisas que a Coreia do Sul faz bem, como a forma como ensinam matemática, como valorizam a educação. Podemos aprender com eles. Mas não quer dizer que devemos imitá-los em tudo. É um exemplo extremo de uma forma

Qual é o principal obstáculo à reforma educacional?
Acho que é provavelmente a falta de informação sobre o que realmente importa. Há atores políticos e líderes sindicais que estão realmente tentando manipular com o sistema. Mas a maioria das pessoas em democracias não estão. Todos em algum nível querem o mesmo, que é um sistema educacional melhor. Mas há muito ruído, distração, muitos debates que têm muito pouco a ver com aprendizagem. Muitos pais e professores têm visões fortes sobre o que importa e o que não importa em educação. Se não há consenso sobre o que realmente funciona e pouca crença nas lideranças, você pode enlouquecer e colocar muito dinheiro em coisas que não funcionam.

No livro, você cita o caso de Rhode Island (nos EUA) que aumentou as exigências para a entrada nas faculdades de educação e enfrentou muita resistência e diagnósticos de que isso excluiria candidatos de classes mais pobres e minorias. Como isso progrediu?
Acho que continuaram tentando aumentar as exigências para entrada nas faculdades de professores. Fizeram algum progresso. Não terminaram com um corpo de professores menos diverso, mas é importante mencionar que eles já não tinham um corpo de professores muito diverso antes.
Nos Estados Unidos, esses argumentos sobre as faculdades de educação normalmente terminam com argumentos sobre raça. Existe um medo legítimo e honesto de que, se você aumenta as exigências para aqueles que querem estudar para se tornar professores, você vai excluir os candidatos afro-americanos ou latinos. O desafio é que essa emoção nem sempre é baseada em evidências.
Acho que coisas similares ocorrem em outros países. Quando você começa a falar em elevar as exigências para as faculdades de professores, está falando em mudar as regras em uma indústria que emprega milhões de pessoas.
É importante fazer isso com cuidado e ter em mente o que deve fazer para compensar essas mudanças de forma a continuar a atrair os melhores professores. Isso tem a ver com professores que conseguem se conectar com seus alunos, que entendem os problemas que eles enfrentam, que têm perseverança para insistir quando as coisas parecem não estar funcionando.

Qual deveria ser o ponto de partida para uma reforma que busque melhorar a qualificação e aumentar a motivação dos professores?
Acho que no mundo perfeito você faz duas coisas ao mesmo tempo. Você aumenta muito as exigências para a formação de professores, o que torna a profissão muito prestigiada. Ao mesmo tempo, pode aumentar os salários desses professores.
Mas acho que há muitas formas de compensação e dinheiro é uma delas. Se você não pode bancar um aumento imediato de salários, o prestígio, o respeito e a autonomia são outras formas.
Assim, se você decide aumentar a exigência na formação dos professores, você tem de fazer muito barulho sobre isso. Você tem de dizer para todos, o mais alto que puder, que você mudou a cultura da educação dos professores. Se você não fizer isso, não estará aumentando o prestígio da profissão.
Um exemplo disso foi o que ocorreu na Finlândia nos anos 1980. O sindicato dos professores fez um anúncio que dizia uma só frase: a Finlândia tem os professores mais bem educados do mundo. E era verdade. Uma frase como essa pode mudar tudo. Muda a forma como políticos, pais e especialmente alunos trabalham nas escolas.
Isso é algo que alunos que acompanhei falavam muito. Os garotos americanos perceberam que os alunos dos países com melhores resultados acreditavam na escola. Eles reclamavam, tinham professores que amavam e professores que odiavam. Reclamavam dos testes e do dever de casa. Mas acreditavam que o que faziam ao longo do dia afetava diretamente o quão interessante suas vidas seriam.
Uma vez que as crianças passam a acreditar na escola, o trabalho de todos se torna mais fácil. É o óleo que faz as coisas funcionarem. Sem esse impulso, é muito difícil.

Características da personalidade, como persistência, que você cita como um aspecto comum dos melhores países, estão relacionadas à cultura?
Acho que algumas características estão, sim, relacionadas à cultura. A Finlândia tem uma cultura que realmente valoriza a auto-suficiência e a resiliência [capacidade de se recuperar logo].
As coisas ficam interessantes quando os valores culturais interagem com as mudanças de políticas. Todo país tem ativos culturais diferentes. Eles precisam ser explorados no âmbito das reformas educacionais de forma a impulsionar as mudanças necessárias.
Estava lendo outro dia sobre uma escola pequena nos Estados Unidos que fez um anúncio em preto e branco que dizia: você é forte o suficiente? É o clássico clichê americano, totalmente ridículo. Mas, por um lado, talvez funcione. Eles estão dizendo que essa é uma escola para alunos que são fortes.
Acho que eles habilidades não cognitivas e aprendizagem vão juntos, especialmente agora. Há mais oportunidades do que em qualquer momento para que as pessoas realizem suas aspirações. Mais do que antes, uma pessoa pode fazer um movimento, pode escrever um livro e publicá-lo. Isso é ótimo.
Mas, por outro lado, não basta ser um gênio. Você precisa ter a perseverança, o otimismo e a curiosidade. Você converte essas qualidades em realidade.
Acho que de forma crescente não é possível separar a aprendizagem em matemática da perseverança.
Acho que há mais espaço para se provar e menos espaço para ser bem sucedido baseado apenas em ter ido à melhor universidade. Estamos caminhando em uma direção na qual empregadores estão cada vez mais interessados no que as pessoas podem fazer e menos interessados no nome de sua universidade. É uma mudança devagar, mas que significa que você não pode mais se esconder atrás de um nome de alto nível. Você tem de continuar sendo testado por seu trabalho, mais e mais. Mesmo em um país rico, se você consegue um trabalho, não consegue mantê-lo a menos que continue provando seu valor mais e mais.

O que você acha sobre a trajetória do Brasil?
Há muito que não sei, mas acho que os resultados no Pisa [teste internacional de desempenho de alunos em que o Brasil aparece entre os piores países] são motivo para esperança. O Brasil teve avanço maior do que qualquer outro país em matemática desde 2003. Acho que a redução geral da pobreza não explica tudo isso. Aparentemente, há outros fatores contribuindo.

Você é otimista em relação às tendências educacionais no mundo?
Eu me sinto encorajada pelo fato de que as crianças podem de verdade aprender muito. Podemos ver evidências disso. Mesmo crianças que vivem na pobreza são capazes de progredir e pensar por elas próprias. Isso está claro agora e não estava algumas décadas atrás. Isso é excitante mas também cria muita pressão. Se é possível que mais crianças atinjam esses níveis, então é duro não fazermos tudo o que pudermos para conseguir isso. Então, diria que sinto otimismo misturado com medo.

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