Fundamental 2 precisa olhar para adolescência como uma fase de oportunidades

Seminário em Brasília (DF) reúne gestores educacionais para debater os desafios e as possibilidades para os anos finais do ensino fundamental

Porvir – por Marina Lopes  29 de setembro de 2017

Depois da primeira infância, a adolescência é o segundo período de maior plasticidade cerebral. Embora pesquisas de neuroeducação já tenham demonstrado que as rápidas transformações dessa fase da vida devem ser encaradas como uma janela de oportunidades para a aprendizagem, os anos finais do ensino fundamental ainda lidam com a ausência de políticas e são vistos como uma transição dos anos iniciais para o ensino médio. Como se não bastasse o rótulo de “etapa esquecida da educação básica”, o fundamental 2 também enfrenta o desafio de se conectar aos interesses e demandas de estudantes do século 21.

Para debater os desafios e oportunidades desta etapa, um seminário realizado em Brasília (DF), nos dias 27 e 28 de setembro, reuniu adolescentes, especialistas e gestores educacionais de todo o país. Promovido pelo Ministério da Educação, em parceria com o Banco Mundial, o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e o Instituto Inspirare, o encontro também apresentou experiências de êxito e levantou propostas para os anos finais do ensino fundamental.

Grandes desafios dos anos finais
O secretário de educação básica do MEC, Rossieli Soares da Silva, avalia que é preciso direcionar um olhar mais cuidadoso aos anos finais do ensino fundamental. “Estamos certamente falando da etapa menos discutida na educação brasileira”, ressalta, quando exemplifica que a educação infantil mobiliza discussões de acesso e qualidade, as políticas em prol da alfabetização se consolidam e o debate sobre o ensino médio ganha destaque na pauta nacional.

Ao destacar que o problema do abandono não começa no ensino médio, ele ainda chama atenção para o número de alunos retidos ao longo do ensino fundamental. De acordo com os dados do Censo Escolar, durante a transição entre os anos iniciais e os anos finais, a taxa de reprovação sobe de 6,8%, no quinto ano, para 14%, no sexto ano. “Uma das grandes justificativas do novo ensino médio é a evasão, mas esse processo começa apenas para os vitoriosos que chegam ao ensino médio”, reforça o secretário.

Entre os desafios estruturais desta etapa, Calos Eduardo Moreno Sampaio, diretor de estatísticas educacionais do INEP, ainda aponta a questão da responsabilidade compartilhada entre estados e municípios, que muitas vezes se reflete na ausência de políticas específicas para os finais. A partir do cruzamento de dados do Censo Escolar, ele também demonstra que os alunos com histórico de retenção no ensino fundamental estão migrando para a EJA (Educação de Jovens e Adultos) e os professores de anos finais têm índices de formação adequada menores do que em outros períodos.

Na avaliação da diretora executiva da Fundação SM, Maria do Pilar Lacerda, alguns desses problemas estão ligados à pouca conexão do fundamental 2 com os interesses e individualidades dos estudantes. “Escutamos os jovens muito pouco. Todos nós já sentimos o desconforto desse sapato pesado, de uma escola que não reconhece que eu me saio bem em português, história e geografia, mas tenho dificuldade em matemática e vou levar mais tempo para aprender isso”, exemplifica.

Voz dos adolescentes

De acordo com ela, para atender às necessidades dos estudantes é preciso organizar um processo de escuta democrática. “Quando discutimos currículo, estamos muito preocupados com os conteúdos, mas esquecemos da forma”, ao mencionar que isso também é fundamental para garantir a aprendizagem de todos. “Se a escola trabalhar só conteúdo, conteúdo, os adolescentes enjoam”, diz o estudante Davison Reno Araújo da Silva, da EEM Ronaldo Caminha Barbosa, de Cascavel (CE).

“Com os desafios Base Nacional Curricular, temos um momento importantíssimo para que os adolescentes se encontrem no espaço do ensino fundamental como coautores”, aponta Auricélia Ribeiro do Nascimento, coordenadora geral do ensino fundamental do MEC, reforçando que eles devem ser envolvidos na organização de tempos, espaços, currículos, estratégias de formação de professores e métodos de avaliação.

Além de promover um processo de escuta, Mario Volpi, chefe de Desenvolvimento e Participação de Adolescentes do UNICEF, diz que para se aproximar do universo desses estudantes é preciso considerar suas novas formas de se organizar e se comunicar. “Nós gastamos muito tempo resistindo às linguagens da adolescência ao invés de dialogar com eles”, reflete. No período das ocupações de escolas, por exemplo, a estudante Ana Clara Nunes, Colégio Estadual do Paraná, em Curitiba (PR), conta que os adolescentes preferiram trabalhar de maneira horizontal, pois o modelo tradicional de representação não conversa mais com o universo deles. “O adolescente não gosta de ser mandado, mas isso não significa que a gente só quer mandar”, diz a estudante Ana Clara Nunes.

Fase de oportunidades
Para dialogar com os estudantes desta etapa, a psicóloga Betty Monteiro e a neuropsicóloga Adriana Foz, especialista em educação no Projeto Cuca Legal (UNIFESP), também apontaram que os educadores precisam compreender melhor as transformações da adolescência para romper com os estigmas dessa etapa. “A gente é muito julgado. Eles não entendem que o adolescente está em constante mudança”, afirma a estudante Marcella Sodré, do Projeto Âncora, em Cotia (SP).

As transformações destacadas pela adolescente são reflexo uma série processos que se iniciam na puberdade, como aponta o neurocientista Laurence Steinberg, professor de psicologia na Universidade de Temple (EUA). De acordo com o especialista, apesar da adolescência ser um período de desequilíbrio maturacional, que torna os estudantes mais suscetíveis a uma série de transtornos psiquiátricos, a fase representa o segundo período de maior plasticidade cerebral.

Nessa fase, ele explica que o cérebro dos estudantes está mais maleável. “Eles aprendem muito mais rápido quando comparado a outras idades”, diz Steinberg, reafirmando que, ao contrário do que muitos pensam, a adolescência deve ser encarada como uma grande oportunidade, não apenas de trabalhar conteúdos, mas de também desenvolver competências importantes para vida.

Experiências de êxito nos anos finais
Com o intuito de mostrar aos participantes que a fase da adolescência pode ser vista como uma possibilidade para potencializar o desenvolvimento dos estudantes, principalmente quando a escola se torna um ambiente de aprendizagem acolhedor, interessante e desafiador, o seminário também compartilhou experiências de sucesso nos anos finais do ensino fundamental. Márcia Campos, secretária adjunta da Secretaria de Estado de Educação do Ceará, compartilhou a experiência do MAIS PAIC, iniciada há pouco mais de um ano na rede, que amplia o trabalho de cooperação com os municípios para atender alunos do 6º ao 9º ano.

No Rio Grande do Sul, o programa Trajetórias Criativas, realizado pelo Colégio de Aplicação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), pela Secretaria de Educação Estadual do Rio Grande do Sul e por um grupo de escolas parceiras, investiu em estratégias de autoria, criação, protagonismo e autonomia, trabalhando na perspectiva da educação integral com adolescentes em defasagem idade-série. O trabalho de estimular a autoria também esteve presente na experiência do Ciclo Autoral, apresentado pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. O projeto envolve estudantes do 7º, 8º e 9º ano do ensino fundamental em um processo de construção de conhecimentos a partir de um trabalho de intervenção social.

Já entre as experiências internacionais, Nuno Crato, ex-ministro da Educação de Portugal, compartilhou como a reforma promovida nos anos finais conseguiu elevar os resultados educacionais a ponto do país superar a média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) no Pisa, avaliação internacional que verifica o desempenho de estudantes de 15 anos em habilidades matemática, leitura e ciências. Uma das estratégias, segundo ele, foi não baixar o nível de exigência entre os estudantes de nível socioeconômico mais baixo, equiparando seus resultados aos dos que apresentavam maior renda.

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