Escolas brasileiras oferecem diplomas estrangeiros de ensino médio

Ig Educação – Por Priscilla Borges |  

Em busca de internacionalização, colégios brasileiros buscam parcerias com instituições de outros países para oferecer chance de sair da escola com dois diplomas

Alan Sampaio / iG Brasília

Falar inglês como um nativo e tentar intercâmbio no futuro são os principais interesses dos alunos

Melhorar a proficiência dos alunos em inglês, garantir diferenciais diante da concorrência e facilitar a entrada de brasileiros em cursos universitários do exterior. São essas as justificativas das escolas brasileiras para oferecer a seus alunos a possibilidade de terminar o ensino médio com dois diplomas da mesma etapa: o brasileiro e o estrangeiro.

A popularidade da internacionalização das escolas brasileiras vem crescendo, apesar de ainda não haver dados consolidados sobre o tema. As parcerias são feitas nas instituições privadas, que têm organizado caravanas de diretores e professores para conhecer experiências de ensino bem sucedidas em diferentes países e aproveitá-las em suas instituições de alguma forma.

Alan Sampaio / iG Brasília

Walter Ribeiro, diretor do Colégio Mackenzie de Brasília, recebeu representantes de escolas estrangeiras interessadas em alunos brasileiros

Walter Ribeiro, diretor do Colégio Presbiteriano Mackenzie em Brasília, foi aos Estados Unidos, França e Finlândia com um grupo de diretores da capital. Recebeu visitas de representantes de instituições inglesas, canadenses e americanas interessados em popularizar seus sistemas de ensino no Brasil. Por fim, a escola optou pela alternativa mais escolhida pelos colégios brasileiros no momento: oferecer o high school americano aqui.

A etapa norte-americana da educação que equivale ao ensino médio do País será oferecida no contraturno das aulas. Os currículos de disciplinas como Matemática, Física, Química e Biologia serão integralmente revalidados pela Texas Tech University, parceira da escola e de outros 40 colégios brasileiros. No outro turno, os alunos terão aulas específicas do currículo dos EUA.

Oratória; história e política americana; economia e inglês (literatura, redação e gramática) são algumas das matérias obrigatórias de quem faz high school nos Estados Unidos. Aqui, as aulas também são (e serão, no caso do Mackenzie) dadas por americanos ou ingleses, sempre em inglês. Em 2014, além do colégio presbiteriano, mais dez escolas do País vão oferecer a modalidade.

“Esse era um sonho antigo da instituição e Brasília, com seu perfil cosmopolita por causa de todas as embaixadas aqui, era o local ideal para começarmos uma escola internacional. Os pais querem preparar seus filhos para o mundo e essa é uma oportunidade”, afirma Ribeiro. O convite para se associar à Texas Tech veio da própria universidade.

Rogério Abaurre Filho, coordenador nacional da Texas Tech University no Brasil, conta que a primeira parceria da instituição com escolas brasileiras ocorreu em 1999. “Essa é uma experiência bem sucedida em outros países. Mantivemos o programa em apenas uma escola brasileira até 2008. Este ano, já temos 2 mil alunos brasileiros no high school”, conta.

Domínio do idioma e intercâmbio

Alan Sampaio / iG Brasília

Alunos do 9.º ano do Colégio Mackenzie, Isadora, Paloma, Manuela e João Pedro já passaram no teste de proficiência em inglês

As aulas complementares nas 51 escolas brasileiras que serão parceiras da Texas Tech começa ainda no 9º ano do ensino fundamental. Manuela Rodrigues, 14, Isadora Martins Pereira, 14, João Pedro dos Santos Ferreira, 13, e Paloma Pimenta da Veiga, 13, passaram no teste de proficiência em inglês aplicado aos interessados em obter dois diplomas ao final do ensino médio e se preparam para começar o modelo em 2014.

Aprender a falar inglês como um nativo e tentar um intercâmbio no futuro são os principais interesses dos estudantes no programa. Nem o aumento na carga de estudos os faz perder a vontade de participar do projeto. Além da aula regular pela manhã, elas terão o calendário esticado em mais duas tardes inteiras por semana no colégio para cumprir o currículo.

“Pode até sobrecarregar, mas não estou com medo”, diz João Pedro, que está “fascinado” com o programa, porque acredita que será mais fácil se candidatar a uma vaga em universidade americana com o diploma. Manuela diz que, mesmo que não faça intercâmbio no futuro, a experiência vai incrementar seu currículo e “abrir fronteiras para o trabalho fora do país”.

Para Paloma, que sempre sonhou em fazer high school nos EUA, a oportunidade facilitou o convencimento dos pais. “Agora não preciso mais viajar. Minha mãe veio à reunião e gostou da proposta”, conta. Ribeiro conta que duas turmas já foram abertas (o limite é de 20 alunos por turma) e estão preenchidas. “Acho que teremos de criar mais”, comenta.

Os pais terão de desembolsar 497 doláres por mês, além da mensalidade regular, que varia entre R$ 1,2 mil e R$ 1,4 mil, para bancar as aulas extras para os filhos. O calendário seguirá os moldes brasileiros e os dois diplomas só serão entregues ao final do 3º ano do ensino médio. “O sistema educacional está se universalizando. O Ciência sem Fronteiras, por exemplo, nos leva a ir além”, diz Ribeiro.

Regras

O funcionamento das escolas privadas é controlado pelos sistemas estaduais e municipais de ensino. De acordo com o presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), José Fernandes de Lima, as regras só definem que todos os estudantes brasileiros têm de seguir as normas dos currículos brasileiros. O que a escola fizer além não é proibido.

“Se a escola acrescentar às aulas do currículo brasileiro alguma atividade que corresponda a um currículo de qualquer outro país, é permitido. Os sistemas devem estar atentos e acompanhar, porque a instituição tem de mostrar seu projeto politico-pedagógico para ser credenciada. O que temos de cobrar é que façam o mínimo exigido pelo Brasil”, afirma.

Lima ressalta que as regras do ensino médio preveem carga de 2,4 mil horas durante a etapa. A duração mínima é de três anos, sendo 800 horas a cada ano. Portanto, os diplomas não podem ser entregues antes desse período. “A mobilidade estudantil está crescendo. O que temos de cuidar é que aquilo que estabelecemos como mínimo não deixe de ser feito”, diz.

Na opinião do conselheiro, esses convênios devem aumentar. “A tendência é que esse tipo de modalidade cresça, porque o Brasil está se tornando protagonista. Temos recebido muitos estrangeiros e muitos deles querem voltar a seus países um dia. É muito interessante que haja esse tipo de convênio”, afirma.

 

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