Editorial: “O equívoco da Escola sem Partido”

O Povo -04/10/17

A escola sem partido é um equívoco que esteriliza o pensamento crítico e põe o aluno numa gaiola mental

A Assembleia Legislativa foi palco de uma discussão proposta por partidários de um projeto de lei, em curso na Câmara dos Deputados, sobre um modelo de ensino chamado de “Escola sem Partido”, que se choca com as atuais diretrizes para a Educação. O tema tem suscitado reações diversas na sociedade e reflete, de certa forma, os enfrentamentos de uma conjuntura cada vez mais dominada pela intolerância.

Para desempenhar seu papel educador, o professor, segundo a Constituição, tem de gozar de liberdade de expressão, o que não deve significar proselitismo, mas trazer ao aluno a complexidade cultural, política, social e filosófica que embasa o meio em que se insere para que esteja minimamente dotado de instrumentos de discernimento para se posicionar ante essa realidade. A escola é o espaço destinado não só a socializar o conhecimento, mas a convivência com a diversidade social, cultural, étnica e política, bem como de respeito ao outro, emoldurado pela ética e a cidadania.

O espaço escolar é o lugar propício ao debate entre diferentes visões de mundo, a partir do conhecimento da gênese e do desenvolvimento histórico de cada uma delas, de modo que se aprenda com seus erros e acertos. Dessa forma, cria-se o ambiente capaz de permitir ao aluno fazer suas próprias escolhas, sem preconceitos e prejulgamentos. Não existe neutralidade nem apoliticismo, pois toda decisão é política (o que não quer dizer partidária), isto é: traduz um lado (negá-lo já expressa alinhamento comum determinado lado). O importante é que o indivíduo o faça conscientemente e não seja um mero joguete de forças aleatórias.

A Escola sem Partido é um equívoco que esteriliza o pensamento crítico e põe o aluno numa gaiola mental, além de criar uma cultura de delação, tal como ocorria nas escolas de regimes totalitários, como o nazismo, o fascismo e o estalinismo. Infelizmente, no Brasil, essa ideia esdrúxula surgiu como um dos frutos da decepção da sociedade com a desonestidade e a hipocrisia de partidos, empresas e entidades religiosas que se esqueceram da obrigação que têm de ser, pelo exemplo, pedagogos da democracia, do interesse público e da ética, dado o poder de influência que têm na sociedade. Com isso, abriram espaço para o obscurantismo, a intolerância e o ódio.

 

Compartilhar no FacebookCompartilhar no Google+Tweet about this on TwitterImprimir esta páginaEnviar por e-mail

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *