Dúvidas no meio da noite? Já existe o ‘professor pré-pago’

Cartão que dá direito a consultas por telefone 24h é vendido em livrarias com mecanismo semelhante ao dos celulares

Cecília Ritto, do Rio de Janeiro – Veja Online
Enem exige a realização de um texto dissertativo-argumentativo, em que o aluno defende o seu ponto de vistaEnem exige a realização de um texto dissertativo-argumentativo, em que o aluno defende o seu ponto de vista(Thinkstock)

A fórmula é a de um celular pré-pago. O cliente compra o cartão e raspa a parte indicada para ter acesso ao código. Letras e números são a senha para entrar no mundo virtual do Apoio Escolar 24 horas, que, entre os serviços oferecidos ao custo de 99 reais por ano, traz o do “professor web”. Durante as manhãs, tardes, noites e madrugadas, docentes de diferentes disciplinas escolares estão a postos para atender as demandas dos alunos que deixaram para estudar na véspera da prova, que precisam entregar algum trabalho sobre um assunto com o qual têm pouca familiaridade ou que estão estudando e, em vez de ter de esperar a próxima aula no colégio, preferem tirar as dúvidas de forma quase instantânea via internet.

O Apoio Escolar 24 horas é um dos braços da empresa Escola 24 horas, que auxilia pelo mundo do computador meio milhão de pessoas, segundo a diretora de produtos do grupo, Luzia Alves. Algumas escolas firmaram convênios e os alunos têm livre acesso a esse complemento de informações, caso da rede de ensino Mopi, no Rio. “Às vezes, o professor tem horário e dia específico de ir à escola. O aluno não precisa acumular dúvida até o dia seguinte. Para algumas séries em que os estudantes estão desenvolvendo a autonomia, pedimos ao apoio que o professor web, ao ver que se trata de um aluno do Mopi, indique a leitura de alguns capítulos do livro em vez de dar a resposta de pronto”, explica o diretor do Mopi, Vinícius Canedo.

 

Cartão pré-pago: professores tiram dúvidas 24hCartão pré-pago: professores tiram dúvidas 24h

No pacote do apoio 24 horas estão incluídas aulas on-line – nas quais os professores, por cerca de uma hora, falam sobre um tema apropriado à série do estudante -, exercícios e material para consulta. Em caso de dúvidas, os professores de plantão respondem até 20 perguntas por mês de cada cadastrado. É rápido, e logo o comentário do docente chega. Não são respostas complexas e, algumas vezes, o português falha e os acentos somem.

O que o sucesso dos cursos de apoio via internet expõe, por outro lado, é a degradação do ensino presencial. Para Marco Silva, professor de educação on-line e de informática educativa da UERJ, a lógica do vestibular que persiste, apesar da implantação do Enem, tem transformado a sala de aula em um espaço superficial, onde, no fim das contas, os alunos percebem em casa, ao se deparar com o livro didático, que algumas informações ficaram por serem melhores explicadas.

Novo espaço – “Temos de pensar o porquê de as escolas oficiais estarem precárias a ponto de surgir esse espaço mercadológico chamado Escola 24 horas. Há degradação do ensino presencial. Isso é generalizado e atinge tanto as escolas públicas quanto as particulares. Tudo funciona em função do vestibular e do Enem, que são as causas das aulas fragmentadas”, explica. “Os professores trabalham na lógica das informações ligeiras, das aulas performáticas. Isso cria lacuna e aligeira o processo de aprendizagem. O resultado é a emergência dessas estratégias tapa-buraco”, argumenta Silva.

A Escola 24 horas tem picos de demanda no fim dos bimestres, quando as avaliações batem à porta ou quando as datas das provas de vestibular se aproximam. Nos anos 2000, a maioria dos usuários desse tipo de serviço era de escolas frequentadas por filhos da alta-roda carioca. Com a expansão da internet e da banda larga, esse perfil mudou. A maior parte dos alunos, agora, é das classes C, D e E, pertencentes à escola pública e com sérias lacunas em suas formações. Outro grupo relevante é o daqueles que não terminaram a escola e pretendem retomar os estudos para fazer o Enem.

Por uma questão “estratégica”, Luzia guarda em segredo o número de professores que trabalham para o Apoio Escolar. Diz apenas ser entre 50 e 100. “Eles trabalham em suas residências. Mas fazemos questão que tenha experiência em sala de aula. Tenho um professor por disciplina de plantão e bancos de respostas para as perguntas mais frequentes”, diz Luzia. No caso das escolas conveniadas, o tratamento é mais personalizado. Os professores de apoio sabem o livro didático do aluno e a linha pedagógica seguida na instituição de ensino. “Se for uma pergunta sobre reforma agrária e se tratar de uma escola progressista, teremos uma abordagem diferente, por exemplo”, explica.

Pontos de venda – Os cartões ‘pré-pagos’ estão espalhados por livrarias, supermercados e lojas do país. Em uma dessas, os pais de Monique Stefhany Ferreira, de 14 anos, compraram o acesso ao apoio virtual. “Às vezes, tenho vergonha de perguntar em sala e atrapalhar a aula. Na internet é mais prático. Aproveito para tirar minhas dúvidas, sobretudo em períodos de prova”, afirma Monique, de Mossoró, no Rio Grande do Norte, que usou do Apoio Escolar 24 horas para ingressar no Instituto Federal do Rio Grande do Norte.

Alunos, de forma geral, buscam facilidades. A internet pode ser um prato cheio. Saber usar ainda é desafiante na área da Educação. O método mais direto, que é o da pergunta e resposta – sem réplica e tréplica –, é rasteiro e não ensina o aluno a pensar e a buscar informações. Em compensação, se bem usada, abre um universo de possibilidades de aprendizagem. “Para que serve um lápis? Pode furar o olho de alguém ou fazer poesia. A internet é um mero instrumento. A vantagem dela é ser interativa. Mas se trata de um equipamento que você pode usar para copiar e colar ou para dar uma guinada na sua formação”, afirma Silva, da UERJ.

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