Contraturno evita evasão de alunos em comunidades carentes

Terra Educação – 16 de maio de 2014 
O projeto da Casa da Arte de Educar permite que alunos participem de atividades educativas no contraturno da escola, para complementar os estudos

Foto: Casa da Arte de Educar / Divulgação

O estudo está cativando mais os alunos em favelas brasileiras. A escola e projetos de instituições e ONGs são uma forma de oferecer melhores oportunidades aos moradores das comunidades. Em pesquisa de 2013, realizada pelo Data Popular em 63 favelas brasileiras, com 2 mil moradores, 17% afirmaram que tinham intenção de entrar para a faculdade no próximo ano, enquanto no Brasil urbano (como foi chamado o restante da cidade), o percentual foi de 10%. A empolgação se repete com os cursos profissionalizantes: enquanto no Brasil urbano 14% pretendia cursar um técnico dentro de um ano, entre os moradores da favela, o número crescia para 31%.

Diversos projetos acontecem nas favelas pelo Brasil afora com o objetivo de incentivar a educação e levar a oportunidade de estudar para a maior quantidade de brasileiros possível. Um dos que mais se destaca acontece há 15 anos no morro da Mangueira, no Rio de Janeiro. Desenvolvido pela Casa da Arte de Educar, o projeto aproveita os conteúdos comunitários para ajudar os alunos na escola, por meio da metodologia da Mandala dos Saberes, já adotada pelo Ministério da Educação (MEC). A gestora de projetos da Casa, Lolla Azevedo, explica que as mandalas foram escolhidas porque seu símbolo é centralizador, é uma visão sistêmica de que nós somos um todo com o conhecimento.

As mandalas relacionam conteúdos da escola regular com saberes comunitários trazidos pelos moradores e direcionam os temas das atividades

Foto: Casa da Arte de Educar / Divulgação

Para participar, os estudantes precisam ter entre seis e 16 anos, frequentar uma escola regular e morar na Mangueira. No contraturno, os alunos participam de atividades na sede do projeto por quatro horas diárias, como oficinas de artes plásticas, música, capoeira, jogos que resgatam a memória da comunidade e aulas de reforço para auxiliar nos conteúdos da escola. Todas norteadas pelas experiências e bagagem cultural trazidas pelos moradores. As mandalas, muitas vezes confeccionadas manualmente ou impressas, são utilizadas em sala de aula para direcionar as discussões entre professores e estudantes, relacionando os conteúdos escolares com vestuário, lazer, organização comunitária e habitação.

Segundo a coordenadora geral da Casa da Arte de Educar, Sueli de Lima, o objetivo é mostrar que é possível educar compreendendo os diversos universos culturais populares. “Ouvíamos muito na comunidade que a escola não utilizava os saberes dos estudantes de classes populares. Os professores dizendo que esses alunos não sabem nada, por exemplo. Mas eles têm uma experiência diversa dos moradores de outras partes da cidade. O projeto tenta mostrar para o mundo acadêmico que podemos colocar o universo das comunidades populares em contato com o restante da cidade e todos se beneficiam”, diz.

Pais voltam a estudar; alunos viram professores
Outro diferencial é que a metodologia não é instrumentalizada, mas sim livre para ser apropriada conforme a realidade em que está inserida, formulando campos de diálogo entre professores, alunos e pais, além de valorizar o morador da favela e suas experiências e conhecimentos. “A metodologia permite que um professor de capoeira possa conversar com o de matemática e eles possam trabalhar juntos, complementando a escola”, explica Sueli. A participação comunitária é muito grande. O projeto realiza pesquisa sobre a realidade local e as avaliações são feitas em conjunto com os moradores. Com as famílias, são realizadas rodas de conversa, onde são discutidos seus direitos e deveres. Os pais dos alunos que quiserem voltar a estudar são bem-vindos na Casa, que oferece o Ensino de Jovens e Adultos (EJA) no turno da noite.

Os pais também podem participar das atividades no Ensino de Jovens e Adultos (EJA) oferecido no turno da noite

Foto: Casa da Arte de Educar / Divulgação

A professora Rose Carol da Silva, moradora da Mangueira, passou de aluna à educadora da Casa. Após se formar em pedagogia na Universidade da Cidade, Carol retornou ao projeto como monitora e, após dois anos, passou a ser professora. O que mais a atraiu no método é a liberdade de criação. “Não ficamos presos no que está pré-estabelecido, podemos desconstruir para construir de novo depois. Realizamos um trabalho continuado. As crianças que entram no projeto criam uma vontade enorme de viver e participar do mundo”, comenta.

Os resultados do projeto já começaram a aparecer. O índice de evasão escolar, em 2011 e 2012, para os alunos da Casa, foi de 0%. Em termos de reprovação escolar, enquanto a média da Mangueira é de 14%, a dos estudantes da Casa cai para 2%. O que sugere que o reforço de conteúdo oferecido pelo projeto ajuda os estudantes na escola. O aluno Emerson Pereira dos Santos, 14 anos, confirma que a melhora do desempenho na escola acontece. “Desde que comecei a frequentar a Casa, há 5 anos, minha vida mudou. Não sabia muito bem o que era equação, a matemática. As atividades na Casa são como um reforço”, conta.

O estudante do 9º ano do ensino fundamental, que no futuro quer ser bombeiro, participa das aulas de capoeira, dança, música e outras tantas porque gosta. “Antes eu apenas ficava em casa estudando. Hoje venho para a Casa porque tenho vontade de participar. O diálogo escolar também me ajuda muito”, afirma.

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