Alguns problemas do ensino médio

Ao avaliar os cursos de Física ministrados no Ensino Médio, vejo alguns problemas que, acredito, ocorrem também em outras disciplinas deste nível educacional.

Como autor de livros de Física, tenho participado de várias palestras com professores da área. Além disso, mantenho a atividade de aulas particulares e, assim, fico sabendo o que acontece em muitas escolas conceituadas. O resultado dessas duas experiências é o desânimo, pois percebo vários problemas na condução da prática de ensino da disciplina.

Primeiramente, os professores, em sua maioria, só usam o livro didático como fonte de exercícios: os alunos copiam a matéria da lousa e se utilizam destas anotações para estudarem para as provas. Não há orientação para usar o livro a partir da teoria e das leituras adicionais, tanto históricas quanto de aplicações. Como resultado, são obtidas lacunas na bagagem conceitual dos educandos que, geralmente, aprendem apenas a resolver alguns modelos de exercícios.

Um outro problema é a falta de aulas práticas em laboratório específico. Na maioria das escolas, raramente os alunos são levados a conhecer esse recinto.

O terceiro problema, no caso da Física, está no conteúdo desatualizado. A Física ensinada pára em meados do século XIX, nada sendo dado da Física moderna.

Porém, não podemos dizer que o professor é o vilão dessa história. Na realidade, ele é levado a isso pela pressão dos pais de alunos, que exigem dos colégios a preparação de seus filhos para os vestibulares. O professor acaba agindo dessa maneira devido à grande extensão dos programas.

Recordo que, com as modificações introduzidas na década de 70, foram eliminados os vestibulares por áreas, passando-se a cobrar tudo do aluno, independentemente da área da carreira almejada, sem que os programas fossem diminuídos ou modificados. O cidadão não precisa saber toda a Física da maneira como é cobrada nos vestibulares. Do mesmo modo, há excessos nas outras disciplinas. Não é possível gerar esse monstro de duas cabeças proposto por nossas autoridades educacionais: um Ensino Médio ao mesmo tempo formativo e propedêutico.

Assim, torna-se necessário tomar algumas medidas, como foi feito em vários países europeus.

Em primeiro lugar, os currículos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio devem ser reformulados, determinando-se o que realmente o cidadão precisa saber de cada disciplina. Isso constituiria a educação básica, que duraria um número de anos a ser estabelecido na própria reformulação. Além disso, deve-se procurar uma continuidade entre o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, pois a educação hoje está como há 50 anos: mudaram-se os nomes, mas continua a antiga estrutura de primário, ginásio e colégio.

Em segundo lugar, deve ser criado um curso preparatório ao vestibular, separado por áreas, o qual deverá ser cursado após a formação básica.

Por exemplo, na Espanha (país do qual nossos reformadores copiaram tantas coisas) a formação básica dura 10 anos, enquanto no Brasil a duração é de 11. A seguir, para aqueles que desejam ingressar numa faculdade, há um curso de dois anos, chamado bacharelado , separado por áreas.

Sem essas medidas, acredito, não há saída. Nós, autores de livros didáticos para o Ensino Médio, continuaremos a sofrer para produzir nossos livros.

José Luiz Pereira Sampaio

 

MEC compra livros de português e matemática para o ensino médio

O secretário do Ensino Médio, Antonio Ilbañez Ruiz, em carta de 13 de agosto último, convidou a ABRALE a participar da reunião técnica: Princípios e critérios para avaliação pedagógica do livro do Ensino Médio, realizada em Brasília, no auditório do MEC, em 01/09/2003. Outras entidades também foram convidadas para o evento – destinado à definição dos critérios de avaliação das obras. Entre elas: ABRELIVROS (Associação Brasileira dos Editores de Livros), SBM (Sociedade Brasileira de Matemática), SBMAC (Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional), ALAB (Associação de Lingüística Aplicada no Brasil), secretarias estaduais de educação etc.

Somente à entrada do auditório, os representantes da ABRALE (Gelson Iezzi, Gilberto Cotrim e Luiz Márcio Imenes) tomaram um primeiro contato com os documentos elaborados pelos consultores da SEMTEC/MEC: Princípios e critérios gerais eliminatórios; Princípios e critérios específicos para o livro de Português; Princípios e critérios específicos para o livro de Matemática; Princípios e critérios para dicionário de Língua Portuguesa (esses documentos estão disponíveis para todos os autores associados que os solicitarem).

Ao se pronunciar durante o evento, Gelson Iezzi, presidente da ABRALE, disse que esta entidade vem acompanhando a avaliação de livros desde 1994 e que produziu recentemente, em conjunto com a ABRELIVROS, um documento com críticas e propostas para aperfeiçoar o processo de avaliação. Embora tal documento já tivesse sido encaminhado ao MEC, Gelson aproveitou a ocasião para entregá-lo novamente à SEMTEC. Em seguida, destacou um ponto relevante do documento: a proposta de que a avaliação de livros didáticos seja contínua e desvinculada dos cronogramas de inscrição/compra de livros dos programas, transformando-se em processo de certificação. Haveria, dessa forma, um espaço para os autores recorrerem contra as avaliações ou corrigir pequenas falhas.

Na sua fala, Gilberto Cotrim, diretor da ABRALE, afirmou que se o MEC rejeita a concepção dos livros didáticos “fechados”, também não poderia continuar praticando uma avaliação “fechada”, que não permite participação efetiva dos autores e dos professores da rede pública. Criticou os organizadores do evento por estes não terem enviado, com antecedência, os documentos que estavam sendo apresentados, impossibilitando assim a coleta de contribuições e de análises aprofundadas sobre os textos em discussão.

Luiz Márcio Imenes, membro do conselho deliberativo da ABRALE, discorreu, entre outras coisas, sobre a necessidade de o MEC, ao avaliar livros, conferir direito de resposta aos autores. Além disso, ponderou que, diante da exigüidade dos prazos para inscrição das obras e da complexidade dos critérios de avaliação, seria impossível a elaboração imediata de obras novas para o programa, enquanto as obras já existentes não poderiam contemplar satisfatoriamente o modelo exigido. Portanto, nesse primeiro momento, seria razoável o “abrandamento” das exigências feitas pelo MEC.

CRONOGRAMA DO MEC
A publicação do edital de convocação das editoras deve ser feita entre os dias 15 e 20 de setembro deste ano. O período entre outubro de 2003 e janeiro de 2004 ficou estipulado para inscrição das empresas interessadas em participar do processo. A avaliação pedagógica das obras inscritas será realizada entre fevereiro e maio do próximo ano e a escolha, de junho a agosto. Setembro ficou definido como o mês da aquisição dos livros-texto para o ensino médio pelo Ministério da Educação, que vai distribuí-los nas escolas de todo o país entre dezembro de 2004 e janeiro de 2005.
Fonte: www.mec.gov.br/semtec

 

Prestando contas

No dia 10/05/2003, a diretoria da ABRALE promoveu uma reunião com autores de Ciências que tiveram livros excluídos nos últimos PNLDs, com o objetivo de apreciar as avaliações atribuídas às suas obras, assim como estudar as medidas cabíveis a respeito.

Aos 8 autores de Ciências presentes, a diretoria da ABRALE relatou a opinião jurídica de sua consultora para direitos autorais, Dra. Maria Luiza de Freitas Egea. Vários usaram da palavra para apontar falhas e contradições dos avaliadores.

Após discussões, ficou estabelecido que os autores deveriam encaminhar as resenhas das avaliações, acompanhadas de réplica, à autora designada como relatora, que elaboraria um documento-base para o posicionamento da ABRALE sobre o problema.

No dia 21/05/2003, o presidente da ABRALE foi a Brasília para participar de uma reunião no gabinete do Ministro da Educação, Dr. Cristovam Buarque. Estavam presentes: a secretária da SEF, Dra. Maria José Feres; o presidente da FNDE, Sr. Hermes de Paula; o diretor da FNDE, Sr. José Humberto de Paula; representantes dos editores SNEL, ABRELIVROS e CBL; livreiros (ANL); e dos ilustradores.

O Ministro queria ouvir os participantes a respeito do PNBE (Programa Nacional de Bibliotecas Escolares) e do PNLD para o Ensino Médio. Nosso presidente aproveitou a oportunidade para entregar ao ministro uma cópia do documento Para formar um país de leitores, elaborado conjuntamente pela ABRALE e ABRELIVROS, e apresentar críticas à avaliação estatal de livros didáticos, destacando-se:

a preocupação da ABRALE com a manutenção (provisória) das equipes de avaliação do governo FHC, temendo a continuidade dos equívocos anteriores;
a não participação dos professores regentes;
a avaliação excludente, sem direito de defesa aos autores;
o excessivo prazo ocupado pela avaliação dentro do PNLD, em detrimento de outras etapas.
A secretária da SEF prometeu que a avaliação de livros será revista.

No dia 27/06/03, foi realizada uma reunião extraordinária entre os membros da diretoria e dos conselhos deliberativo e fiscal, em que estiveram presentes: Gelson Iezzi, Maria Cecília Condeixa, José Trivellato Jr., Marília Centurión, Márcia Aidar, Scipione de Pierro Netto, Eustáquio de Sene, Maria Cristina Giovanni, José Ruy Giovanni Jr., Vera Novais, Luis Márcio Imenes, Maria Fernanda Antunes, Francisco Moura.

Nesta, foi apreciado e debatido o relatório dos autores de Ciências excluídos nos últimos PNLDs.

Após discussões, foi aprovado por consenso o seguinte:

a ABRALE assume como suas as críticas ao processo de avaliação de Ciências que constam da última versão do relatório produzido pelos autores;
a ABRALE cuidará do texto para dar-lhe unidade de estilo, eliminar possíveis erros gramaticais, evitar que existam citações de erros em obras já aprovadas na avaliação e contradições com o documento ABRALE/ABRELIVROS, além de inconveniências de ordem jurídica;
a ABRALE concluirá o documento, pedindo que o MEC tome, com urgência, as medidas cabíveis para evitar a repetição dos equívocos das avaliações de Ciências, mas não pedirá explicitamente a desqualificação da comissão de avaliação ou de seu coordenador;
a ABRALE enviará a versão final do documento ao MEC (de dois modos: um informal e um documentado), ao CNE e aos CEEs;
a forma final do documento será dada pelos diretores Gelson Iezzi e Maria Cecília Condeixa, com a colaboração de Francisco Moura (revisão gramatical) e Dra. Maria Luiza Egea (revisão jurídica);
No fim dos debates, os diretores José Trivellato Jr. e Márcia Aidar apresentaram suas renúncias aos cargos que ocupam na diretoria. José Trivellato Jr. alegou estar renunciando por sentir que suas opiniões estão atrapalhando as ações da diretoria. Em resposta, Vera Novais disse que José Trivellato Jr. não deveria ter-se precipitado enviando e-mails e fazendo telefonemas a associados da ABRALE contrários à reivindicação dos autores de Ciências, pois tinha tido a oportunidade de falar quando ajudou a presidir reunião com esses autores em 10/05/03. Gelson Iezzi lembrou a Trivellato que este havia prometido apoiá-lo na presidência durante os dois anos de mandato, configurando sua renúncia uma falta à palavra empenhada. Márcia Aidar alegou razões de ordem pessoal e profissional, que a estariam impedindo de se dedicar às atividades da diretoria.

Informação sobre a exploração econômica das obras

No boletim 21 inserimos um artigo denominado “Entendimentos ABRALE e ABRELIVROS”, em que relatamos as solicitações da ABRALE e a resposta da ABRELIVROS.

Tendo em vista que a ABRELIVROS decidiu apoiar as solicitações da ABRALE e pedir às editoras de livros escolares que envidem todos os esforços no sentido de atender os tópicos mencionados pela ABRALE, queremos enfatizar que cabe aos autores fazer a cobrança da implementação das medidas aprovadas junto à sua editora, ou seja:

1) a editora deve informar mensalmente:

a) a quantidade de exemplares produzidos em cada nova impressão;
b) a quantidade de exemplares ofertados a título de propaganda / divulgação;
c) a quantidade de exemplares vendidos;
d) o estoque residual existente;
e) o preço de capa (ou de varejo) da obra.
2) a editora deve identificar a edição e a impressão (ou reimpressão) em cada exemplar da obra, por meio de código alfanumérico impresso no colofon.

A diretoria da ABRALE gostaria de se manter informada pelos autores a respeito dessas medidas, a fim de transmiti-las aos demais, pois, conforme lembra a ABRELIVROS, cada editora é autônoma e dispõe de recursos técnicos, controles e gestão distintos.

 

Carta ao secretário do ensino médio

Em carta enviada ao Secretário do Ensino Médio e Tecnológico do MEC, a diretoria da ABRALE destacou que o seminário sobre os critérios de avaliação frustrou nossas expectativas por várias razões:

1. Só tomamos conhecimento de que havia uma “proposta” de critérios elaborada pela SEMTEC à entrada da reunião. Sobre esse documento, dentro de poucos dias, deveríamos opinar e sugerir mudanças “que não alterassem sua essência”.

2. A pressa, com que se pretende implantar um sistema de avaliação, impede que se discutam propostas mais fecundas para o Ensino Médio, tais como:

a) desvincular a avaliação de livros do calendário de compras, tornando-a um processo contínuo de certificação de obras, em que haja espaço para os autores discutirem as avaliações recebidas, garantindo-lhes, assim, o direito de resposta em respeito à Constituição;
b) dar maior representatividade às comissões de avaliadores/pareceristas incluindo pedagogos, professores regentes e representantes de associações científicas;
c) estabelecer normas que impeçam, por algum tempo, que os avaliadores tornem-se autores e que promovam sua competência técnica, com atenção aos aspectos éticos e democráticos;
d) realizar mudanças nos “Guias” de maneira que estes se tornem verdadeiros instrumentos de informação sobre as características de cada um dos livros, auxiliando de fato os professores no momento de efetuarem sua escolha;
e) discutir em profundidade os critérios de exclusão de obras, evitando ao máximo a subjetividade e garantindo o pluralismo de metodologias.

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