A escola precisa preparar os alunos para programar’

Porvir – 29/10/13  – 

O pesquisador e engenheiro de software Silvio Meira é um dos principais pensadores brasileiros sobre a tecnologia da informação e seu impacto na sociedade. Ele escreve artigos científicos e para a imprensa, dá consultorias e profere palestras concorridíssimas em universidades e fora delas. Paraibano de 58 anos, ele também nunca saiu da escola – Silvio é formado em Engenharia Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica, tem mestrado em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Pernambuco, doutorado em Computação pela University of Kent at Canterbury (Inglaterra) e é professor titular de Engenharia de Software da UFPE. Mas tem convicção de que a tecnologia da informação está questionando a utilidade do sistema escolar clássico.

“O que a gente vê claramente acontecendo hoje é um processo em que nós entendemos – talvez de uma vez por todas – que se aprende por toda vida, não só na escola”, diz Silvio.  Aprende-se durante uma discussão na mesa de bar que suscita uma dúvida solucionada pelo Google, aprende-se russo pelo Google Translate durante uma viagem, aprende-se assistindo a vídeos pelo Youtube, exemplifica o pesquisador. “A tecnologia existe fora da escola, em larga escala, profundamente na sociedade”, disse em entrevista ao Porvir. “O mundo não está esperando pela escola, quem está atrasada é a escola”, acrescentou.

Durante a conversa de quase uma hora, que evoluiu sobre questões relacionadas a processos de aprendizagem, problemas do ensino público brasileiro, ferramentas como Youtube e Bing, inovações na área educacional como o EdX (plataforma de cursos online de Harvard e MIT), games, robôs e programação, Silvio foi categórico em afirmar que  o “sistema educacional está falido de maneira catastrófica”.

 

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Mas o engenheiro, que ainda é cientista chefe do centro privado de inovaçãoC.E.S.A.R, acredita que mais difícil do que atualizar os professores ou as próprias instituições tecnologicamente é fazer com que a escola seja um ambiente de aprendizado de processos de percepção, interação, compreensão e de intervenção no mundo. E já está preocupado com uma demanda futura, a necessidade de disseminar a cultura da programação. Para Sílvio, numa prazo de 30 a 40 anos será necessário, para exercer qualquer profissão, ter criatividade e capacidade de socialização com softwares de robôs. E é papel da escola preparar os alunos para essa realidade.

“O desafio de usar ou tecnologia da informação não existe mais. As pessoas já usam. Elas precisarão programar também”, prevê. Silvio lança hoje, em São Paulo, o livro Novos negócios inovadores de crescimento empreendedor no Brasil, no qual trata do tema explicando porque o empreendedorismo virou moda no país.

Leia parte da conversa:

Qual é a principal contribuição da tecnologia da informação e da internet para os novos processos educacionais?
A internet e a banda larga estão espalhadas na sociedade. O problema não é a disponibilidade. O principal impacto da tecnologia no processo educacional e no conjunto de processos de aprendizado na sociedade é que ela questiona seriamente a utilidade e a capacidade do sistema escolar clássico de entregar o valor que promete, até constitucionalmente, que é o de educar a população de base em larga escala. A distribuição de conhecimento deixou de ser monopólio do sistema escolar na medida em que por meio de ferramentas, como Youtube, Wikipedia e redes sociais, existe uma combinação de biblioteca com escola que coloca em xeque a utilidade e a performance do ambiente escolar clássico.

Você acredita que os alunos já estão preparados para buscar informações e conhecimento e utilizam as redes com o intuito de se formar?
Isso já está ocorrendo. O que a gente vê claramente acontecendo hoje é um processo em que nós entendemos – talvez de uma vez por todas – que se aprende por toda vida, não só na escola. A ilusão de que se aprendia só na escola derivava do fato de que a escola era ambiente escasso (existiam poucas), restrito (estavam em poucos lugares) e com um processo de admissão e tempo próprios. A escola como a gente conhece é temporária e limitada. O que o ambiente de conhecimento extra escolar distribuído globalmente por meio de um smartphone faz é possibilitar que em qualquer hora, até numa discussão de mesa de bar, se crie um ambiente de aprendizado. Se você fizer uma pergunta, como “quando foi primeiro teste de bomba atômica?”, ocorre uma fração de processo de aprendizado. Quando você chega para Google ou para Bing e pede para eles definirem uma palavra e eles voltam para você com a definição, está consultando dicionários que estão on-line o tempo todo.  Quando você dá ao Google Translate uma expressão em português e ele volta com a definição – por mais problemas que tenha na tradução –, está num ambiente de aprendizado. Recentemente, estive na Rússia e não falo nenhuma palavra de russo, mas não tive problema em lugar algum. Eu estava aprendendo russo sem uma escola de russo ao meu redor, mas eu tinha o Google Translate, tinha Google Maps, e por aí vai.

As pessoas aprendem socialmente, como sempre fizeram. Então, o problema não é como a escola vai usar a tecnologia, não é como as pessoas vão usar a tecnologia na aula. A tecnologia existe fora da escola, em larga escala e profundamente na sociedade. O problema é que ela não foi inserida nem pela escola, nem pela universidade. Essas duas entidades estão correndo atrás do conhecimento tecnológico informal para entender como devem trazê-lo para dentro do ambiente escolar. O mundo não está esperando pela escola, quem está atrasada é a escola.

O que esperamos do sistema educacional é que ele prepare as pessoas para serem cidadãos competentes num ambiente compartilhado. Você tem que aprender processos de percepção com o mundo ao seu redor, de interação, compreensão e de intervenção.

E as crianças também aprendem fora da escola ou ainda é necessária uma instituição para mediar o processo de aprendizagem?
Mediação não precisa. Precisa ter sistematização, estrutura, arquitetura. Existe um ambiente de conhecimento que está espalhado na sociedade inteira e as pessoas estão num processo de percepção, emoção e prática desse sistema fora da escola. O que elas não têm? Não tem isso sistematizado sobre uma arquitetura de conhecimento que dê estrutura ao que elas estão aprendendo e facilite o processo de relacionamento de coisas. As pessoas precisam relacionar o que o carro tem a ver com aquecimento global, precisam entender toda a cadeia de valor do combustível, da fabricação e do uso do carro para entender a relação de causa e consequência. Se você tiver essa sistematização, estrutura e arquitetura, cria novas situações e processos que levariam a acelerar os mecanismos naturais de aprendizado que já estão distribuídos na sociedade de várias formas.

Os professores fariam isso ou a própria rede faz?
Eu acho que a rede não pode fazer essa sistematização sozinha. Hoje no processo de navegação as pessoas são guiadas pelos próprios interesses. O que esperamos do sistema educacional é que ele prepare as pessoas para serem cidadãos competentes num ambiente compartilhado. Você tem que aprender processos de percepção com o mundo ao seu redor, de interação, compreensão e de intervenção. Se a gente olhar para a educação com um ambiente de preparação para isso é bastante claro que não temos muitas escolas que atendem essas demandas. O sistema educacional está falido de maneira catastrófica. Existe um processo industrial de treinar pessoas em sala de aula usando conhecimento do passado para um mundo lá fora que está mudando de forma tal que a gente não consegue nem renovar esse conhecimento do passado na velocidade que seria necessária, quanto mais inserir nele conhecimento novo. Aí você tem coisas absolutamente ridículas que passam a acontecer, como introduzir tablets no ambiente educacional. Você pega todo o conteúdo que existia, esse que vem da lata do lixo da história, joga dentro do tablet e diz: agora temos uma escola informatizada. Lamento dizer que isso é jogar dinheiro fora.

E qual é o caminho para mudar efetivamente?
A transformação vai vir em boa parte do sistema educacional clássico, ele próprio vai reagir, pelo menos a parte que não morrer. Quando você olha para o nível superior, a notícia mais quente em educação no mundo é que oedX se juntou ao Google para fazer com que sua plataforma de software possa ser usada no mundo inteiro para virtualizar os cursos. É um movimento nesse sentido, mas se você for parar para pensar, vai ver que o edX é só uma sala de aula on-line…

O edX é uma inovação?
Mesmo nos exemplos mais famosos falta inovação. Vamos pegar uma que dizem que é fantástica, que o Brasil inclusive está usando recursos públicos e privados para traduzi-la e trazê-la ao sistema educacional, a Khan Academy. A inovação da vez não tem nada de inovador, a inovação não é dela, é do Youtube, que permite que você pare a aula e volte. Eu tinha uma professora de história em 1962 e uma de português em 1965 que eram muito melhores que Salman Kahn em usar giz colorido no quadro preto. Só porque alguém descobriu como usar um laptop, uma câmera e um processo de captura de tela e giz colorido virtual todo mundo acha que é absolutamente fantástico. É surpreendente que um sistema educacional de um país do tamanho do Brasil se curve diante de algo tão rudimentar. Não estou tirando o valor da Khan Academy, mas dizer que é inovador e que vai salvar por si só a educação do Brasil ou de qualquer outro país é não entender nada de educação.

O uso de games educativos é válido?
Tudo é potencialmente uma inovação. De novo, o problema não está centrado na tecnologia. Depende do game. Quando alguém fala em game educacional, já começo a tremer. Normalmente, quando chamam assim, é um saco de jogar. O que as pessoas querem jogar? Elas querem o que chamamos de mecânicas de jogos, mecanismos de interação que criam um ambiente de entretenimento de alta jogabilidade. ‘Já joguei, gosto de jogar e se tiver oportunidade vou jogar de novo’. O problema é como contrabandear o processo de aprendizagem para dentro dessa dinâmica. AJoyStreet, por exemplo, faz isso bem, oferece um conjunto de produtos e serviços que vai desde jogos digitais num ambiente de rede social, onde as pessoas têm que se articular em grupos para jogar e portanto constroem um processo de formação de comunidade real e concreto dentro da rede social on-line, até outras coisas como microjogos, experiências interativas e gamificadas pontuais associadas ao processo de aprendizado onde tudo foi pensado de tal forma que jogar é divertido. Não é a toa que GTA V vendeu US$ 800 milhões nas primeiras 24 horas. Não vendeu isso porque forçou as pessoas a comprar. Aquilo é um negócio que captura uma quantidade grande de interesse porque é um jogo muito bom de jogar.

Então a aula tem que ser divertida também?
O meu filho tem 12 anos e estuda numa escola com foco na robótica. Todas as aulas são feitas com robôs: história, português, matemática, todas. Quando é assim, ele quer ficar o dia todo na escola. Ou seja, não é só a internet, estamos vendo uma informatização do mundo ao nosso redor que passa também por robôs, impressoras 3D, e a escola pode interagir com tudo isso. Imagina pegar uma equação matemática de uma figura sólida e imprimir a figura em 3D? É fantástico.

Você sempre deveria poder voltar para aquela escola e perguntar a você mesmo ou eventualmente à escola “como é mesmo o processo da regra de 3?” Precisamos começar a fazer isso. Instituições fora da escola, como edX, Google, Coursera, Khan Academy, estão fazendo isso, mesmo que algumas delas de forma rudimentar.

Eventualmente você pode fazer até a virtualização da própria escola de modo extremamente básico, como o edX faz. Que problema as escolas teriam hoje se elas filmassem todas as aulas de todos os professores só para os alunos daquela sala não perderem nenhuma aula, nem se estiverem doentes? Se está de cama, por que o aluno não pode assistir à aula em casa? E se é assim, será que o aluno precisa ir para a escola assistir a aula lá?  Para a maioria dos alunos o principal papel da escola como prédio não é o de ensinar, de criar oportunidade de aprendizado de ciência, matemática, humanidades. A escola é um ambiente de socialização, de entendimento dos mecanismos de relacionamento, é um lugar onde a gente aprende a se comportar, a respeitar os outros, a entender o que é minoria e o que é pressão social. E aí aparece um outro problema: a escola, principalmente a pública, é hoje o melhor lugar para socializar? Também não.

Mas essa socialização também é importante, não?
Sim. A questão não é só digitalizar a escola, conectar a escola, trazer robô para a escola, botar a escola na web. O problema é muito maior, é como a gente faz com que ela seja um ambiente de criação de oportunidades, de aprendizado, de socialização, de preparação para a vida, onde as pessoas vão querer voltar o tempo todo. Eu vejo cada vez mais a escola como um ambiente onde a gente sempre deveria voltar. Você nunca deveria deixar de ser aluno. Você deveria entrar na escola no começo da sua vida, com cinco anos, ganhar um email e uma homepage que teria pelo resto da vida. Você sempre deveria poder voltar para aquela escola e perguntar a você mesmo ou eventualmente à escola “como é mesmo o processo da regra de 3?” Precisamos começar a fazer isso. Instituições fora da escola, como edX, Google, Coursera, Khan Academy, estão fazendo isso, mesmo que algumas delas de forma rudimentar.

A falta de cultura digital dos professores não é um empecilho para atualizar a escola?
Os professores não são um problema. Há um número gigantesco de professores que, como eu, vem do passado. Eu não posso evitar ter nascido em 1955, estou fazendo o que posso para entender o mundo ao meu redor, mas quando o meu filho me desafia a jogar, eu fico perdido. O fato é que ele tem 12 anos hoje e daqui a 13, quando tiver 25, esse mundo vai ser natural para ele. Isso é a evolução. Todo ano se aposenta uma quantidade grande de professores que nasceu na época que eu nasci e para cada um deles é contratado um professor da década de 80 ou depois. Eles já são digitais. Esse sistema será transformado em uma pequena parte pela adaptação dos que estão dentro do sistema e em maior parte pelo processo de troca dos que saem e já cumpriram seu papel pelos que chegam.

Mas ainda falta trocar bastante gente…
Daqui a 15 anos, a vasta maioria dos professores, tanto do sistema público como privado, vai ter nascido na era da internet. Basta fazer as contas:  em 2027 um professor que entrou no sistema em 1997 já vai estar se aposentando. Na sociedade o tempo é o valor muito importante.

Você é engenheiro e sempre defende que os profissionais precisarão cada vez mais saber programar. A escola já deve ensinar isso?
Você não tem que ensinar os alunos a programar, eles têm que aprender a programar. É difícil ensinar se as pessoas não sabem como ensinar. Com robôs, já se cria um ambiente para isso. O funcionamento deles é todo em cima de programação de objetos que se movem na realidade física ao seu redor. Todo mundo que faz robótica tá fazendo programação. Vem um mundo por aí em que uma das únicas demandas globais para trabalhadores é que eles tenham criatividade e capacidade de socialização com softwares de robôs.

Num longo prazo, de 30 a 40 anos, o único profissional que vai ser difícil desaparecer é aquele que no trabalho – seja ele médico, fisioterapeuta, motorista – saiba programar instrumentos e ferramentas que usa pra realizar o seu ofício.

Eu sou gerente de software, eu estou escrevendo com meus alunos, colegas e pessoas que trabalham comigo em várias instituições os sistemas de informação que vão determinar como você se comporta. Num longo prazo, de 30 a 40 anos, o único profissional que vai ser difícil desaparecer é aquele que no trabalho – seja ele médico, fisioterapeuta, motorista – saiba programar instrumentos e ferramentas que usa pra realizar o seu ofício.

A escola tem que se preparar – e tem que nos preparar – para uma realidade em que haverá dois tipos de gente: quem programa e quem é programado. Eu quero ser quem programa, e a maioria das pessoas também. O principal problema da escola não é a tecnologia da informação ou a computação, é que ela precisa entender que há um novo nível de literatura, de cultura, e que ela precisa preparar as pessoas para isso. Esse nível de cultura e literatura envolve programar sistemas digitais, sejam eles abstratos e virtuais, como a internet e sistemas de informação, ou concretos, como prédios, portas, robôs, automóveis. E esse é o desafio da escola. O desafio de usar a tecnologia da informação não existe mais. As pessoas já usam. Elas precisarão programar também. Quem não tiver a fim, pode se mudar para uma comunidade Amish (grupo religioso nos Estados Unidos que não usa energia elétrica, computador e automóvel), onde se vive como em 1815. É uma beleza também.

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