“A Educação não tem plano. Nem responsável”

Fonte: Revista Época Negócios  15 de agosto de 2015

Apontado como o pai do Bolsa Família e maior especialista brasileiro em políticas públicas, Ricardo Paes de Barros deixa o governo para tentar revolucionar o ensino do país

Matéria originalmente publicada na edição de maio de Época NEGÓCIOS

É a primeira vez, em 37 anos de carreira, que Ricardo Paes de Barros, apontado como o maior especialista brasileiro em políticas públicas, não tem um emprego no setor público. Desde os anos 70 ele esteve ligado ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ainda que numa carreira entrecortada por doutorado e pós-doutorado nos Estados Unidos. Ali, a poucas quadras da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, sobreviveu a diversos governos e desenvolveu alguns dos mais sólidos estudos sobre desigualdade e pobreza do país. Liderou, no início do governo Lula, o grupo que deu forma ao Bolsa Família. Colegas pesquisadores (incluindo vencedores do Nobel, como o economista americano James Heckman) o definem com epítetos como “brilhante”, “gênio”, “guru”. Desde 2011, ele batia ponto na Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), um órgão com status de ministério, ligado à Presidência da República. Em março, fez as malas. Mudou-se para São Paulo.
PB, como é conhecido, vai trabalhar no Instituto Ayrton Senna, que tem como meta melhorar a educação do país. Seus programas impactaram 1,8 milhão de estudantes, em 700 municípios. Será o economista-chefe da organização. Na prática, sua missão é transformar em política educacional as chamadas habilidades do século 21, como saber trabalhar em grupo, defender as próprias ideias, respeitar as diferenças, desenvolver projetos com múltiplas fontes de informação. Também vai comandar um centro internacional de pesquisa, o eduLab21, a ser lançado pelo instituto neste mês. Na primeira entrevista após a mudança, o economista (cuja formação original foi em engenharia, no ITA) diz como a educação pode, enfim, vingar no país. Entre outros problemas, indica o inimigo número 1 do setor: a falta de governança. “Ninguém é o responsável. Ninguém senta e explica por que a educação não dá certo.”
Época Negócios: Por que o senhor saiu da Secretaria de Assuntos Estratégicos para trabalhar em uma organização não governamental?
Ricardo Paes de Barros Quando há troca de ministros, tipicamente as equipes mudam [em março, Mangabeira Unger substituiu Marcelo Neri na SAE]. Mas já estava no plano sair. Eu havia completado 37 anos de governo e creio que cumpri o meu dever. Do lado de fora, vou ter mais espaço para pensar essas diversas questões [como pobreza e desigualdade, temas que estuda] e influenciar as políticas públicas. O pessoal do Instituto Ayrton Senna disse: “Venha criar um centro de conhecimento sobre habilidades do século 21”. Achei interessante. Vou desenvolver uma coisa nova, que tem tudo para ser de extrema importância. É uma ideia audaciosa, transformadora.
Qual é a ideia?
Ricardo Paes de Barros Colocar o desenvolvimento de habilidades do século 21, sobretudo as socioemocionais, na pauta da política pública. Hoje, existe uma grande quantidade de conhecimento sobre o tema, mas ele ainda não fez a transição da ciência e da academia para a prática.
O que são essas habilidades socioemocionais?
Ricardo Paes de Barros São habilidades que incluem trabalhar em grupo, se comunicar, argumentar, escutar ativamente, defender ideias, vencer a timidez, acreditar em um trabalho conjunto.
A ideia é levar esse conhecimento para a sala de aula?
Ricardo Paes de Barros Para a sala de aula e para a política do secretário de Educação, do ministro da pasta etc. No fundo, minha função será fazer a ponte, levar a produção científica e acadêmica sobre esse tema para o gestor público.
Qual é a importância dessas habilidades socioemocionais? O que a ciência sabe a esse respeito?
Ricardo Paes de Barros Grande parte do trabalho será justamente sistematizar o que a ciência sabe sobre isso. Sabemos que um aluno com bom nível socioemocional tem um aprendizado melhor. Mas temos de organizar o conhecimento, criar critérios para avaliar essas práticas e achar uma maneira de todo mundo ter acesso a isso. É como se a gente tivesse muitos remédios, que estão espalhados por aí. O Ceará tem bons programas, mas não estão documentados de forma que o Maranhão possa copiá-los. Vamos catalogar e avaliar tudo isso.
Fazer uma grande “farmácia” desse tipo de conhecimento.

Ricardo Paes de Barros Com bula, direitinho, dizendo o que serve para cada problema e quanto isso custa. Por isso, o trabalho é desafiador e grande.

Quais são essas iniciativas no Ceará?
Ricardo Paes de Barros O Ceará criou condições para que o aluno, em alguns momentos, não veja as matérias de forma isolada. Ele pensa em um projeto. Por exemplo: por que não chove aqui? Então, ele vê a estatística pluviométrica, as explicações da física, química, biologia. A questão é a importância integradora dessa atividade.
As empresas têm feito sua parte pela educação?
Ricardo Paes de Barros Muitas inovações educacionais vêm de organizações apoiadas pelo setor produtivo. Mas existe uma questão controversa, que podemos explicar com uma analogia com o futebol. Todo mundo tem de apoiar a seleção, certo? Mas você tem de eleger uma equipe técnica que vai fazer aquilo funcionar. O Todos Pela Educação, criado pelo setor produtivo, é uma ideia genial, estabeleceu metas cuidadosas, mas a pergunta é: e se elas não forem cumpridas, o que acontece? Em uma empresa, se alguém não cumpre uma meta, há uma consequência. Então, a gente deveria dizer: “Ok, vamos dar 10% do PIB para a educação, mas queremos tais resultados. Se eles não vierem, as consequências serão as seguintes”. Estamos certos em aumentar o gasto nacional com o ensino, mas se não fizermos isso com governança, não vai funcionar.

E quem é o Dunga da educação?
Ricardo Paes de Barros Aí está o problema. O governo federal diz que é o estado, o estado diz que é o município, o município diz que é a escola – e, na verdade, ninguém é o responsável. A governança não foi definida. No início dos anos 60, o presidente americano John Kennedy anunciou: “Vamos para a Lua até o fim da década”. Aí, veio um pessoal e disse: “Dá para fazer, vai custar tantos bilhões e a gente vai ter de criar a Nasa”. Então vieram as metas: colocar o primeiro satélite em órbita no ano tal e assim por diante. Se não desse certo, uma providência era tomada. Isso é governança.
O responsável não seria o ministro da Educação?

Ricardo Paes de Barros Pois é. Aí está a questão. É ele? Ele controla? Ele diz que não. Que país é esse que ninguém é o responsável pelo maior desafio de todos? A descentralização na educação é ótima, mas se ela ocorre à custa de nenhuma governança, não faz sentido.

O que muda, na prática, com a proposta da Pátria Educadora?
Ricardo Paes de Barros Pode ser que tenha mudado muita coisa, mas eu ainda não captei. Ainda estamos tentando colocar alguém na Lua, mas sem um projeto.
Mas o senhor estava, até outro dia, dentro da SAE. Não conseguiu captar a proposta do governo para a educação?
Ricardo Paes de Barros Eu não a entendi. Eu não sei qual é a proposta do programa Pátria Educadora. Sei que o ministro Mangabeira Unger, de Assuntos Estratégicos, está trabalhando em algo audacioso. É curioso. Você sabe que, na economia, o Brasil tem um problema. Aí, colocam o Joaquim Levy como ministro da Fazenda. O Levy tem um plano. Se o Brasil não entrar no eixo, a cabeça dele rola. Enfim, a coisa tem um responsável. Na educação, não funciona assim.
A respeito do ministro Joaquim Levy, um programa que está sendo impactado pelos ajustes é o Fies. O senhor concorda com isso?
Ricardo Paes de Barros Por que o ajuste não é feito em outra direção? No sentido de cobrar a universidade de quem pode pagar, em vez de deixar de financiar quem não pode? Parece uma solução fiscal antieducação.
O senhor já declarou o seguinte: “A educação deveria ser feita de modo que pobres e ricos fossem misturados na mesma sala de aula, sentassem no mesmo refeitório, usassem o mesmo ônibus e tivessem acesso aos mesmos livros. No fim do mês, chegaria uma conta para o rico e para o pobre não”. Como isso funcionaria?

Ricardo Paes de Barros A escola não precisa ter uma gestão pública. Eu posso pegar as escolas privadas e dizer: “Você vai admitir um monte de gente pobre e, nesses casos, eu pago a conta. Para os outros, você cobra”. É o que fazemos com o SUS. Além do mais, há uma grande vantagem em promover essa mistura. Às vezes, o pai do pobre não tem tempo ou formação para reclamar da escola. Os pais mais educados podem ter. Ao isolar os caras que reclamam dos que não reclamam, aumentamos a desigualdade.
Qual é a medida mais importante para proporcionar um salto na educação?
Ricardo Paes de Barros O grande problema da educação brasileira é que você vai a um bairro pobre e encontra escolas com IDEB 6, uma classificação considerada boa. Mas a escola ao lado tem IDEB 3, que é baixo. E a ruim não faz nada para aprender com a boa. Uma coisa que poderia ser feita é regular a autonomia de cada uma delas. A sua escola está bem, você tem autonomia. Vai mal? Isso muda. Existe uma coisa que é a hierarquia do direito: acima do direito de autonomia da escola está o direito do aluno de aprender.
Como essa difusão de bons exemplos poderia ocorrer?
Ricardo Paes de Barros Você pega os diretores das escolas boas e paga bem para eles irem até as ruins. O que você faz quando uma empresa vai mal? Muda o gestor. Com escola acontece o contrário. Ela está indo à falência e ninguém diz: “Basta, vou trocar o diretor”. Se você tiver uma tropa de diretores bons, isso pode salvar a educação brasileira. A questão é: como você promove a difusão dos bons exemplos em um sistema estatizado, em que ninguém tem incentivo para melhorar nada?
Como criar esses incentivos?
Ricardo Paes de Barros Com remuneração. Outra coisa: é preciso dar destaque aos responsáveis pelo bom trabalho. É importante alardear: “Agora temos um batalhão de diretores excepcionais, eles são reconhecidos por todos, aparecem na TV, são premiados, o prefeito fala sobre eles na comunidade, os jornalistas os entrevistam”. É assim.
“Não entendi o Pátria Educadora. Queremos ‘levar alguém à Lua’ sem ter um projeto”
Também faltam incentivos para os professores melhorarem?
Ricardo Paes de Barros Um professor é diferente do outro, mas é tratado como se fosse igual. A desigualdade entre os professores é menor até que em profissões muito homogêneas, como servente de pedreiro. Como você vai gerir uma “empresa” com centenas de milhares de empregados, com qualidade variada entre eles, pagando o mesmo salário? Isso vai contra o princípio básico da boa administração.
O senhor é apontado como o principal responsável pelo atual formato do Bolsa Família. O que sente quando o programa é criticado?

Ricardo Paes de Barros Existem manifestações críticas em relação ao Bolsa Família?

Existem pessoas que chamam o programa de “Bolsa Esmola”.Dizem que os beneficiários não querem trabalhar, pois se acomodam.

Ricardo Paes de Barros O Bolsa Família representa 0,5% do gasto público e cumpriu seu papel. O governo prometeu reduzir pobreza e desigualdade. Ele fez isso. Os avanços que o Brasil obteve na área da agricultura familiar, na redução da mortalidade infantil e da subnutrição são fantásticos. Acho que estão discutindo a coisa errada. Por exemplo, na mortalidade materna, o Brasil não vai cumprir as Metas do Milênio. Na educação, a gente não tem nada. A produtividade brasileira não cresce.

A melhora da educação resultaria em um avanço da produtividade?
Ricardo Paes de Barros Temos um megaproblema de produtividade, mas que não é só resultado da educação. O nosso nível de investimento é baixo. A nossa incorporação de tecnologia é lenta. Inovamos pouco, copiamos pouco. A produtividade depende de muitos outros fatores além da educação.

 

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