A criança, o livro digital e o futuro da leitura

 

Blogs.Estadão – Babel – 20/02/14
 
Alunos do colégio Santa Maria, de São Paulo (Clayton de Souza/Estadão)

A Feira do Livro de Frankfurt está no Brasil esta semana para debater temas como a tecnologia aplicada ao mercado editorial e à educação, a leitura infantojuvenil, o novo perfil das editoras e a interação entre empresas de tecnologia, editoras e escolas. Esta é a terceira vez que eles organizam, no País, a Contec. Hoje, a conferência está sendo realizada em Canoas, no Rio Grande do Sul. Na terça, os profissionais se reuniram em São Paulo.

Na edição paulista, houve quem defendesse, de forma ferrenha, o e-book e, principalmente, os aplicativos; quem pregasse a união entre papel e digital na criação de um produto híbrido e quem reforçasse a importância da relação da criança com o objeto livro e com os mediadores de leitura. Embora alguns dos palestrantes discordassem, o debate foi tranquilo e em nada lembrou o histórico bate-boca entre o escritor e crítico Alberto Manguel e a editora inglesa Kate Wilson, da Nosy Crow, na Jornada de Literatura de Passo Fundo, em 2011.

Só para lembrar: Ela tinha acabado de mostrar para a plateia um livro digital da Cinderela cheio de penduricalhos. Manguel, autor de Os Livros e os Dias e de Todos os Homens são Mentirosos, entre outros, se exaltou e disse: “Eu não sabia que faria parte dessa discussão a deformação do leitor defendida com argumentos comerciais, de vender este ou aquele produto. O livro não é um produto comercial. É nocivo que uma crianças de três ou quatro anos seja introduzida à leitura dessa forma, aprendendo a ler na tela. Aprender a ler é outra coisa”.

O jornalista americano Todd Oppenheimer, autor do livro The Flickering Mind: Saving Education from the False Promise of Technology, faria o papel de Manguel na Contec, mas em cima da hora ele cancelou sua viagem ao Brasil. Fiz uma pequena entrevista com ele na semana passada, que entraria na matéria Feira de Frankfurt debate o futuro do livro digital, publicada na terça-feira no Caderno 2. Com sua desistência, a entrevista não cabia mais na matéria. Mas vale a leitura:

Considerando o processo de aprendizagem e o desenvolvimento de consciência crítica, quais são os prós e contras do uso da tecnologia nas escolas e no dia a dia?
A internet é inegavelmente uma grande fonte de informação e com o passar do tempo só melhora e se enriquece. Mas seu surgimento aponta para um novo desafio que as escolas não têm prestado muita atenção: como avaliar com sabedoria a informação da internet. Computadores também podem ser boas ferramentas para despertar a criatividade – de novo, se usados da maneira correta. O problema é que a maior parte das escolas e dos alunos o usam do jeito errado. Nos primeiros anos, quando a experiência tátil é crucial, o uso é excessivo. Nos anos mais avançados (ensino fundamental e acima), os jovens deveriam aprender como os computadores funcionam, como programá-los, como construí-los, como consertá-los, etc. As escolas não fazem isso e simplesmente aceitam os computadores como sistemas de distribuição do que quer que esteja na moda ou de interesse comercial. É uma pena, e uma terrível ironia, já que o principal argumento para que haja computadores nas escolas é que eles ajudam a preparar o aluno para o futuro.

O uso de tecnologia nas escolas é irreversível?
Não acho que seja absolutamente irreversível, mas é pouco provável que diminua por enquanto. A longo prazo, porém, acredito que esse uso será menor. Isso, quando nós, aos poucos, formos percebendo a vasta gama de habilidades humanas que estamos perdendo e descobrirmos que estamos criando uma geração de autômatos que mal consegue ter relações pessoais ao vivo – e que geralmente tem medo disso.

Quais são os principais desafios para o sistema educacional na era da tecnologia?
O primeiro é preservar, nos jovens, a capacidade de concentração, a criatividade e o esforço pessoal (ao invés de esperar que as informações e a diversão cheguem prontos, num click, até eles). O segundo é preservar o interesse deles em outras pessoas (e não em aparelhos eletrônicos). Este último item será mais importante na próxima década à medida que nossas vidas se tornam mais multiculturais e cruzadas. O profissional de sucesso de amanhã será aquele capaz de entender outras culturas e capaz de resolver problemas com criatividade e baseado num profundo conhecimento de história, filosofia, antropologia, entre outras ciências. A tecnologia ajuda em algumas dessas habilidades. Mas a maioria delas requer leitura, conversa inteligente (cara a cara, e não tela a tela) e trabalho paciente.

Com relação à experiência de leitura, o senhor acredita que aplicativos funcionam como livros tradicionais? Eles deixam espaço para imaginação?
Depende do aplicativo. A maioria não porque acaba fazendo muito do trabalho que a imaginação humana deve fazer por conta própria, tornando, assim, a imaginação de um jovem preguiçosa e deficiente. Pense nos programas de rádio. Por muito tempo eles foram chamados de “teatro da mente” porque provocam a imaginação ao invés de preenchê-la. Bons audiolivros também fazem isso – e aí está a boa tecnologia, e um bom jeito de ler. Além disso, acredito que devemos ser cuidadosos ao deixar a tecnologia bagunçar muito com a narrativa tradicional. Há um motivo para que essa narrativa seja o método dominante de contar história desde que os humanos começaram a conversar. Muitos aplicativos prometem romper com o modelo tradicional com a ideia de que se tornarão superiores. Na maioria dos casos, essas inovações não passam de novidade. E essas novidades não duraram por um simples motivo: elas são complicadas – ou, mais frequentemente, são simplesmente chatas.

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